Pesquisa   Facebook Jornal Alvorada
Login

Login na sua conta

Username *
Password *
Lembrar-me

Criar uma conta

Campos marcados com (*) são obrigatórios.
Nome *
Username *
Password *
Confirmar Password *
Email *
Confirmar email *
Captcha *
Reload Captcha

Aprender a ser próximo!

Um dos maiores bens que podemos ter na vida é a amizade de pessoas com quem podemos partilhar a nossa vida e de quem esperamos a reciprocidade do amor, dedicação e entrega. Aristóteles, na ‘Ética a Nicómaco’, diz mesmo que “para ser feliz o homem necessita de amigos virtuosos”. A virtude está na gratuidade do amor.

Hoje parece muito difícil ter amigos. Conhecidos, pessoas com quem convivemos em diferentes ocasiões, e outros tipos de interacção passageira e pouco comprometida, porventura, até teremos várias, mas amigos é um outro tipo de relação que exige muito mais e não é fácil encontrar e manter.

O tempo novo que estamos a viver levanta imensos desafios, e um sério e importante é: de que forma como podemos manter-nos próximos do outro mantendo o necessário distanciamento? Uma amiga convidou-me a procurar a etimologia do substantivo «conversa» e da forma verbal «conversar», porque a sua compreensão é muito importante para as relações que podemos construir uns com os outros. Lembrava-me que não há muitos anos um elemento essencial do namorar era a conversa acompanhada que os namorados eram convidados a ter um com outro para que se conhecessem, e dessa forma poderem estar preparados para um possível crescer na intimidade. Muitos até aprenderam a namorar por correspondência, e pela escrita conheciam e se davam a conhecer.

Esta preciosa aprendizagem parece que ficou perdida no tempo e as relações vivem muito mais do interesse egoísta de algum prazer momentâneo e fugaz do que da doação generosa de quem cresce quando se dedica a cuidar do outro dedicando tempo a escutá-lo. O significado original de «conversar» era estar na companhia de outra pessoa, ter intimidade ou desfrutar de convívio regular com alguém. O conceito estava ligado à proximidade entre pessoas que se conhecem e estão em contacto regular, partilhando experiências. Assim, «conversar» transmite a ideia de se virar para junto de alguém, ou virar sua atenção para uma pessoa.

Penso que agora teremos de aprender esta forma tão importante de proximidade, seja na forma como fazemos amizades ou quando queremos avançar numa relação de namoro. O outro é uma pessoa e não um objecto que me desperta ou não interesse consoante os meus desejos e caprichos. O verbo namorar vem da expressão espanhola «estar em amor» e é para isso que somos criados: aprender a amar. Não somos coisas descartáveis. Não somos animais sem consciência que vivem apenas de instintos e necessidades básicas de auto-satisfação.

O distanciamento a que estamos obrigados é uma oportunidade a construirmos relações que façam de nós melhores pessoas. É interessante pensar que as regras de segurança até obrigam a que se tenha de utilizar máscara como protecção mútua, o que faz que apenas possamos olhar os outros nos olhos enquanto falamos com eles. Dizem que os olhos são o espelho da alma e como é importante que nós aprendamos a olhar para nos podermos conhecer. Ir além da superficialidade, dedicar tempo e atenção ao outro, abrir-se à relação que nos faça verdadeiramente felizes, porque fizemos bem a quem partilha da nossa vida. A verdade é que esta pandemia mostra-nos, de facto, que se não nos respeitarmos podemos estar a pôr em perigo a nossa vida e a de quem a partilha connosco. 

O Papa Francisco escrevia, aos jovens e a todos, na Exortação Apostólica Cristo Vive: “A amizade é um presente da vida e um dom de Deus. Através dos amigos, o Senhor purifica-nos e faz-nos amadurecer. Ao mesmo tempo, os amigos fiéis, que permanecem ao nosso lado nos momentos difíceis, são um reflexo do carinho do Senhor, da sua consolação e da sua amorosa presença. Ter amigos ensina-nos a abrir-nos, a compreender, a cuidar dos outros, a sair da nossa comodidade e isolamento, a partilhar a vida. Por isso, «nada se pode comparar a um amigo fiel, e nada se iguala ao seu valor» (Sir 6, 15)”.

Olhemos o tesouro e aprendamos a cuidar! Não tenhamos medo de ser próximos!

Pe. Ricardo Franco
Edição 1284 - 17 de Julho de 2020



“Vivemos de Páscoa em Páscoa, até chegarmos à Páscoa eterna!”

Todos nós, enquanto pessoas, somos uma construção que acontece fruto da nossa vivência familiar e da nossa convivência com os outros. A família é sempre a base na qual vai sendo edificada toda a mundividência que recebemos, na escola, nas nossas relações interpessoais, e nos diversos ambientes em que a vida acontece. Ao longo da nossa história existirão sempre pessoas cuja presença deixa marcas e são dons de graça que nos enriquecem. Recordá-las é ocasião de expressar gratidão, de fazer uma homenagem sentida pelo muito que significam para nós, e receber de forma responsável o testemunho que deixam quando partem para a eternidade.

O Pe. Luís Manuel Pereira da Silva, Cónego e Pároco da Sé Patriarcal de Lisboa, é uma dessas pessoas que no dia 12 de Junho, aos 63 anos, passou para junto do Pai. Na sequência de grandes vultos da Reforma Litúrgica em Portugal, Monsenhor Pereira dos Reis, Pe. Manuel Luís e Cónego José Ferreira, ele acolheu de forma magistral a tradição recebida e foi incansável no seu entusiasmo, na generosidade, e na missão de levar multidões a conhecer e a viver a beleza da vida celebrativa da Igreja. Foi meu professor, irmão no sacerdócio e amigo, e tive-o sempre como mestre na senda do Pe. Zé Ferreira e do Pe. Joaquim Duarte que me ensinaram o zelo e o amor pela liturgia.  

A Liturgia é a obra de Deus pela qual nos é comunicada a graça do Mistério Pascal de Cristo, e é também obra da comunidade cristã na medida em que realiza e manifesta a Igreja como sinal visível da comunhão de Deus e dos homens por Cristo; empenha os fiéis na vida nova da comunidade, e implica uma participação «consciente, activa e frutuosa» de todos. Esta dupla afirmação da Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II é fundamental para uma correcta compreensão da celebração cultual em Igreja.

A Páscoa é o centro de todas as acções litúrgicas. Diz o Catecismo da Igreja Católica: “Na liturgia da Igreja, Cristo significa e realiza principalmente o seu mistério pascal. (…) É um acontecimento real, ocorrido na nossa história, mas único; todos os outros acontecimentos da história acontecem uma vez e passam, devorados pelo passado. Pelo contrário, o mistério pascal de Cristo não pode ficar somente no passado, já que pela sua morte, Ele destruiu a morte; e tudo o que Cristo é, tudo o que fez e sofreu por todos os homens, participa da eternidade divina, e assim transcende todos os tempos e em todos se torna presente. O acontecimento da cruz e da ressurreição permanece e atrai tudo para a vida”.

Os ritos são meios pelos quais a obra da redenção de Cristo se actualiza na vida dos fiéis. O Pe. Luís nunca se cansava de afirmar com uma alegria e vivacidade contagiante: “Vivemos de Páscoa em Páscoa até alcançarmos a Páscoa eterna!”. E hoje este refrão ressoa ainda mais fundo porque ele experimenta já a verdade que sempre ensinou. A Liturgia insere-nos na acção salvífica de Cristo, somos introduzidos no Mistério do Amor de Deus que quer fazer-nos participantes da sua vida.

Santo Agostinho sintetiza de forma belíssima a sede que todos sentimos: «Fizestes-nos para Vós e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em Vós». Quando celebramos em Igreja somos saciados na fonte de delícias que é Cristo, e nos é dada a viver uma plenitude que nos descansa.

A comunidade cristã precisa de redescobrir a beleza da vida litúrgica. É importante que não nos acomodemos ao que está mal na forma como celebramos, porque é a nossa vida que está em causa. Querer reduzir as celebrações a manifestações de piedade duvidosa sem consequências concretas na existência, esvaziá-las da densidade do mistério através de expressões pobres de uma afectividade exacerbada que não vai além da superficialidade do sentir, ou fazer da prática um cumprimento exterior de ritos e preceitos que se fazem sem saber bem porquê, são perigos constantes que é preciso vencer por um zelo evangélico de fidelidade à tradição da Igreja.

A verdade é Cristo oferecido a todos na Cruz, e nós unidos a Ele, para que vivamos a eterna bondade que nos salva. Quando formos à Igreja não nos esqueçamos disto e veremos como o mistério nos envolve numa presença de gozo eterno.

Pe. Ricardo Franco
Edição 1283 - 19 de Junho de 2020



Desconfinar do medo!

Hoje uma das palavras centrais na nossa conversação é: medo. Tanto da parte daqueles que vivem assustados com um mal que ninguém vê, como daqueles que de forma irresponsável e leviana acham tudo um exagero e não têm medo nem cuidado. O tempo que estamos a viver é um desafio a sermos conscientes dos perigos e aprendermos o equilíbrio que nos permita viver esta situação que ninguém esperava e para a qual não estávamos preparados.

O medo é paralisante. O mundo mudou e essa mudança é difícil de compreender e aceitar na forma como concebemos a vida e nos habituámos a estar frente à realidade. Al Berto escrevia, num poema em 1991 do seu livro ‘O Medo’, uma frase que traduz muito bem a actualidade que vivemos: “Sinto que há uma estranha eternidade naquilo que amámos e foi destruído.” O desconhecido, as notícias constantes muitas vezes contraditórias, a informação e a desinformação, criam um clima de insegurança e incerteza que nos atemoriza e deixa na dúvida de como agir.

O confinamento foi fundamental para se poder controlar o contágio quase inevitável, e foi uma experiência extremamente difícil e custosa, mas agora é necessário um exercício ainda mais exigente que é o de refazermos os nossos hábitos com todas as contingências sanitárias que agora se impõem. O respeito pelo esforço de tantos no combater este vírus, muitos à custa da sua própria vida, outros com enormes sacrifícios pessoais e familiares, exige que não regridamos o caminho percorrido só para atender aos nossos caprichos ou vontades egoístas.

Agora é preciso desconfinar! E não se trata apenas sair de casa, ou regressar paulatinamente as nossas anteriores ocupações. É necessário o desconfinar de todas as formas erradas de viver. Das mentiras a que nos habituámos por comodismo. Das rotinas alienantes para preencher um vazio que nunca desaparece. Desconfinar para começar de novo e de uma maneira nova.

É uma oportunidade que não podemos perder! Vençamos o medo com a alegria de poder voltar a estar com os outros ainda que à distância. Aprendamos a sorrir com os olhos, porque a máscara cobre o resto do rosto, para mostrarmos a quem amamos o quanto é importante para nós. Estejamos atentos e disponíveis para tantos que neste momento vivem provações e sofrem as angústias de um futuro sem horizonte. Sejamos solidários partilhando o pouco que temos na certeza que o pouco de muitos será muito para todos. O futuro não é uma incerteza que nos atemoriza, mas a exigência de um compromisso que faça de nós mais uns para os outros no amor e na alegria.  

Termino estas linhas com duas orações que nos podem ajudar a sair do medo, a olharmos a vida com esperança e com vontade de fazer que agora ela importe ainda mais para nós e para os outros.

Uma do Papa Francisco neste último Domingo de Pentecostes:

“Espírito Santo, memória de Deus, reavivai em nós a lembrança do dom recebido. Libertai-nos das paralisias do egoísmo e acendei em nós o desejo de servir, de fazer bem. Porque pior do que esta crise, só o drama de a desperdiçar fechando-nos em nós mesmos. Vinde, Espírito Santo! Vós que sois harmonia, tornai-nos construtores de unidade; Vós que sempre Vos doais, dai-nos a coragem de sair de nós mesmos, de nos amar e ajudar, para nos tornarmos uma única família. Amem”.     

Outra de uma mulher extraordinária que no seu tempo teve de aprender a fazer mudanças muito profundas na sua vida e na Igreja em geral. Rezemos com Santa Teresa de Jesus:

Nada te perturbe, Nada te espante, / Tudo passa, Deus não muda, / A paciência tudo alcança; / Quem a Deus tem, Nada lhe falta: / Só Deus basta.

Eleva o pensamento, Ao céu sobe, / Por nada te angusties, Nada te perturbe. / A Jesus Cristo segue, Com grande entrega, / E, venha o que vier, Nada te espante. / Vês a glória do mundo? É glória vã; / Nada tem de estável, Tudo passa.

Deseje às coisas celestes, Que sempre duram; / Fiel e rico em promessas, Deus não muda. / Ama-o como merece, Bondade Imensa; / Quem a Deus tem, / Mesmo que passe por momentos difíceis; / Sendo Deus o seu tesouro, Nada lhe falta. / SÓ DEUS BASTA!"

Pe. Ricardo Franco
Edição 1282 - 5 de Junho de 2020



“Navegavam sem o mapa que faziam”

Navegavam sem o mapa que faziam”. É um verso de um célebre poema de Sophia de Mello Breyner Andresen citado pelo Senhor Patriarca, na reunião telemática dos padres da Vigararia da Lourinhã, para descrever a situação que estamos a viver, nomeadamente, na forma como nos preparamos para o futuro imediato da vida sacramental da Igreja.

Acredito que a Pandemia nos ensinou a ser mais humildes, a ser mais conscientes da nossa responsabilidade comunitária pelo bem comum, a não pensarmos apenas nos nossos interesses de uma forma egoísta e mesquinha, porque a nossa existência tem uma dimensão de compromisso fundamental para que possamos viver de forma saudável e equilibrada em sociedade. Talvez agora estejamos mais humanos.

A Igreja é a forma mais bela de comunhão porque nasce do próprio Deus, Trindade Santa radicada numa comunhão de Amor de três pessoas distintas em unidade perfeita de dom e de graça. Ela é obra de Deus nascida da Cruz de Jesus e sustentada pela acção do Espírito Santo. Muitas vezes só vemos a sua dimensão humana, muito marcada pela fragilidade, e esquecemo-nos de que quem a garante é sempre Jesus, “a imagem de Deus invisível”. O tempo que estamos a viver exige que redescubramos a radicalidade do Evangelho para podermos fazer da Palavra de Deus o critério da nossa vida, e não sermos escravos da lógica da opinião/decisão pessoal que nos rouba o Espírito e nos incapacita para a comunhão.

A Vida de Deus acontece no serviço ao outro, a começar nos mais frágeis. Não estamos na Igreja para viver numa “engorda espiritual”, aprisionados numa acédia moralista, de quem nada faz e critica os que fazem. A vocação do cristão, tantas vezes esbatida por uma religiosidade afectiva, por um sentimentalismo piedoso, ou apenas por uma qualquer carência não assumida, é a de ser todo de Deus como Jesus, para ser rosto da sua misericórdia e sua presença de Amor.

As “Orientações da Conferência Episcopal Portuguesa para a celebração do Culto público católico no contexto da pandemia COVID-19” são um desafio e uma interpelação a podermos aproveitar este tempo para purificarmos uma prática religiosa de preceito exterior sem conversão do coração, e a cultivarmos a prática sacramental como dom de Deus sem o qual a nossa vida se torna estéril e desprovida de esperança. A missa e os outros sacramentos são a manifestação da providência de Deus que nos comunica a sua Graça, não são coisas que podemos instrumentalizar a nosso bel-prazer numa religiosidade vazia de sentido que serve apenas para cumprir rituais do passado que ficam bem na fotografia.

Os Bispos de Portugal propõe-nos “algumas medidas de protecção que dimanam da caridade fraterna” e que nos vão obrigar a mudarmos hábitos e rotinas na prática religiosa. É fundamental estarmos conscientes das nossas responsabilidades, disponíveis para encontramos a forma de responder às limitações que neste momento estamos sujeitos, de forma a prevenirmos o contágio da enfermidade e podermos garantir a segurança mútua.

O nosso futuro, na vida social e em Igreja, não será certamente um retorno ao passado, por isso, é necessário que cresçamos na experiência do viver em comunidade e dos valores essenciais que nos fazem ser pessoas. As crises são sempre uma oportunidade de irmos mais além, de mudarmos o nosso olhar, a forma de sentir e o modo de agir. A verdade é que este é um caminho para ser feito em conjunto, o distanciamento social não impedirá que aprendamos a estar mais unidos, porque só assim a vida é possível.       

Estamos também nós a navegar sem o mapa que fazemos, e só com o compromisso gratuito e o contributo generoso de todos o Cabo das Tormentas pode se tornar o Cabo da Boa Esperança. Os sacrifícios que estamos a fazer ajudar-nos-ão a não vivermos de forma egoísta e acomodada, a convertemos a obstinação do nosso coração, e a pensarmos sempre primeiro no bem de todos.

Pe. Ricardo Franco
Edição 1281 - 15 de Maio de 2020



A Senhora que nos salva!

A 13 de Maio de 1917 três crianças, que guardavam um pequeno rebanho da sua família, têm um encontro que mudará as suas vidas e a de multidões em Portugal e no mundo inteiro. “Uma Senhora mais brilhante que o Sol” aparece-lhes num cimo de uma pequena azinheira, faz-lhes um pedido - “Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13, a esta mesma hora”, - e pergunta-lhes se aceitam uma missão do Céu: “Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?”. A sua resposta é pronta e decidida: “Sim, queremos!”, a Senhora faz-lhes uma promessa - “Ides pois ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto” e mostra-lhes o caminho - “Rezem o terço todos os dias para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra.”

Fátima é um mistério e um dom extraordinário. Deus actua de formas que estão muito para além da nossa compreensão e, sem ferir a nossa liberdade de filhos, chama-nos a si de formas surpreendentes. As aparições aos pastorinhos são uma manifestação impressionante do poder de Deus na inocência e fragilidade de três crianças. Lúcia, Francisco e Jacinta quando tocados pela Graça aprendem de forma extraordinária a fazerem das suas vidas uma oferta de Amor. Os seus carismas são distintos (Lúcia a mensageira é quem escuta, fala e comunica a vontade de Maria; Francisco o mestre da oração consagra-se na adoração a Jesus escondido; Jacinta a serva do Amor entrega os seus sofrimentos pela conversão dos pecadores e bem de toda a Igreja) mas a missão é a mesma, ensinarem-nos a olhar para Deus, a consagramos a nossa vida ao Sagrado Coração do seu Filho, e ao Imaculado Coração da nossa Mãe do Céu.

O mês de Maio é especialmente dedicado a Maria. O Papa Francisco escreveu-nos a todos uma pequena carta em que exorta a que retomemos um hábito, porventura perdido por muitos, de rezar a oração do Terço em casa e se possível em família. O tempo de confinamento que estamos a viver leva a que descubramos a virtudes da Igreja doméstica, a encontramos o espaço e o tempo para cuidarmos da nossa vida interior, dos anseios mais profundos na nossa alma que nos fazem encontrar a luz mesmo quando existem no mundo tantas trevas.

 Umas das invocações que se podem fazer no final da oração é: Nossa Senhora do Rosário de Fátima, salvai-nos! Salvai Portugal e o mundo inteiro! A verdade é que O Salvador do Mundo é Jesus. Ele na Cruz aceitou tomar sobre si as consequências do mal e do pecado da humanidade inteira e morreu, foi sepultado e desceu às sombrias regiões da morte, mas ao terceiro dia ressuscitou pelo poder de Deus e apareceu a quem se tinha tornado seu discípulo para que fossem testemunhas deste Amor de Deus oferecido gratuitamente aos homens.  

A Virgem Maria é aquela que mais intimamente se uniu a este Mistério de Graça que transforma a vida e, por isso, a sua missão é ser medianeira e intercessora por todos nós que lhe fomos dados como filhos e nos conduzir sempre de novo ao Amor de Deus no encontro com o seu Filho Jesus. Ela salva porque nos leva ao Salvador. Ela salva porque não desiste de nos amar e revelar que nenhum mal é maior que a Graça de Deus. Ela salva porque acolhe-nos a todos sem fazer acepção de pessoas. Ela salva porque aceita ser para nós instrumento da misericórdia do Salvador.

São João Paulo II lembrava na Carta que escreveu sobre a oração do Rosário (nº 41): “A família que reza unida, permanece unida. O Santo Rosário, por antiga tradição, presta-se de modo particular a ser uma oração onde a família se encontra. Os seus diversos membros, precisamente ao fixarem o olhar em Jesus, recuperam também a capacidade de se olharem sempre de novo olhos nos olhos para comunicarem, solidarizarem-se, perdoarem-se mutuamente, recomeçarem com um pacto de amor renovado pelo Espírito de Deus. (…) Retomar a recitação do Rosário em família significa inserir na vida diária imagens bem diferentes - as do mistério que salva: a imagem do Redentor, a imagem de sua Mãe Santíssima.”

Aprendamos com Maria a pôr o nosso olhar e a nossa esperança no Senhor que nos salva e dá sentido à nossa vida, mesmo àquilo que não entendemos e temos dificuldade em aceitar. Com ela aprendamos a ser todos de Deus para sermos cada vez mais uns para os outros!

Pe. Ricardo Franco

Edição 1280 - 1 de Maio de 2020