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“Navegavam sem o mapa que faziam”

Navegavam sem o mapa que faziam”. É um verso de um célebre poema de Sophia de Mello Breyner Andresen citado pelo Senhor Patriarca, na reunião telemática dos padres da Vigararia da Lourinhã, para descrever a situação que estamos a viver, nomeadamente, na forma como nos preparamos para o futuro imediato da vida sacramental da Igreja.

Acredito que a Pandemia nos ensinou a ser mais humildes, a ser mais conscientes da nossa responsabilidade comunitária pelo bem comum, a não pensarmos apenas nos nossos interesses de uma forma egoísta e mesquinha, porque a nossa existência tem uma dimensão de compromisso fundamental para que possamos viver de forma saudável e equilibrada em sociedade. Talvez agora estejamos mais humanos.

A Igreja é a forma mais bela de comunhão porque nasce do próprio Deus, Trindade Santa radicada numa comunhão de Amor de três pessoas distintas em unidade perfeita de dom e de graça. Ela é obra de Deus nascida da Cruz de Jesus e sustentada pela acção do Espírito Santo. Muitas vezes só vemos a sua dimensão humana, muito marcada pela fragilidade, e esquecemo-nos de que quem a garante é sempre Jesus, “a imagem de Deus invisível”. O tempo que estamos a viver exige que redescubramos a radicalidade do Evangelho para podermos fazer da Palavra de Deus o critério da nossa vida, e não sermos escravos da lógica da opinião/decisão pessoal que nos rouba o Espírito e nos incapacita para a comunhão.

A Vida de Deus acontece no serviço ao outro, a começar nos mais frágeis. Não estamos na Igreja para viver numa “engorda espiritual”, aprisionados numa acédia moralista, de quem nada faz e critica os que fazem. A vocação do cristão, tantas vezes esbatida por uma religiosidade afectiva, por um sentimentalismo piedoso, ou apenas por uma qualquer carência não assumida, é a de ser todo de Deus como Jesus, para ser rosto da sua misericórdia e sua presença de Amor.

As “Orientações da Conferência Episcopal Portuguesa para a celebração do Culto público católico no contexto da pandemia COVID-19” são um desafio e uma interpelação a podermos aproveitar este tempo para purificarmos uma prática religiosa de preceito exterior sem conversão do coração, e a cultivarmos a prática sacramental como dom de Deus sem o qual a nossa vida se torna estéril e desprovida de esperança. A missa e os outros sacramentos são a manifestação da providência de Deus que nos comunica a sua Graça, não são coisas que podemos instrumentalizar a nosso bel-prazer numa religiosidade vazia de sentido que serve apenas para cumprir rituais do passado que ficam bem na fotografia.

Os Bispos de Portugal propõe-nos “algumas medidas de protecção que dimanam da caridade fraterna” e que nos vão obrigar a mudarmos hábitos e rotinas na prática religiosa. É fundamental estarmos conscientes das nossas responsabilidades, disponíveis para encontramos a forma de responder às limitações que neste momento estamos sujeitos, de forma a prevenirmos o contágio da enfermidade e podermos garantir a segurança mútua.

O nosso futuro, na vida social e em Igreja, não será certamente um retorno ao passado, por isso, é necessário que cresçamos na experiência do viver em comunidade e dos valores essenciais que nos fazem ser pessoas. As crises são sempre uma oportunidade de irmos mais além, de mudarmos o nosso olhar, a forma de sentir e o modo de agir. A verdade é que este é um caminho para ser feito em conjunto, o distanciamento social não impedirá que aprendamos a estar mais unidos, porque só assim a vida é possível.       

Estamos também nós a navegar sem o mapa que fazemos, e só com o compromisso gratuito e o contributo generoso de todos o Cabo das Tormentas pode se tornar o Cabo da Boa Esperança. Os sacrifícios que estamos a fazer ajudar-nos-ão a não vivermos de forma egoísta e acomodada, a convertemos a obstinação do nosso coração, e a pensarmos sempre primeiro no bem de todos.

Pe. Ricardo Franco
Edição 1281 - 15 de Maio de 2020



A Senhora que nos salva!

A 13 de Maio de 1917 três crianças, que guardavam um pequeno rebanho da sua família, têm um encontro que mudará as suas vidas e a de multidões em Portugal e no mundo inteiro. “Uma Senhora mais brilhante que o Sol” aparece-lhes num cimo de uma pequena azinheira, faz-lhes um pedido - “Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13, a esta mesma hora”, - e pergunta-lhes se aceitam uma missão do Céu: “Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?”. A sua resposta é pronta e decidida: “Sim, queremos!”, a Senhora faz-lhes uma promessa - “Ides pois ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto” e mostra-lhes o caminho - “Rezem o terço todos os dias para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra.”

Fátima é um mistério e um dom extraordinário. Deus actua de formas que estão muito para além da nossa compreensão e, sem ferir a nossa liberdade de filhos, chama-nos a si de formas surpreendentes. As aparições aos pastorinhos são uma manifestação impressionante do poder de Deus na inocência e fragilidade de três crianças. Lúcia, Francisco e Jacinta quando tocados pela Graça aprendem de forma extraordinária a fazerem das suas vidas uma oferta de Amor. Os seus carismas são distintos (Lúcia a mensageira é quem escuta, fala e comunica a vontade de Maria; Francisco o mestre da oração consagra-se na adoração a Jesus escondido; Jacinta a serva do Amor entrega os seus sofrimentos pela conversão dos pecadores e bem de toda a Igreja) mas a missão é a mesma, ensinarem-nos a olhar para Deus, a consagramos a nossa vida ao Sagrado Coração do seu Filho, e ao Imaculado Coração da nossa Mãe do Céu.

O mês de Maio é especialmente dedicado a Maria. O Papa Francisco escreveu-nos a todos uma pequena carta em que exorta a que retomemos um hábito, porventura perdido por muitos, de rezar a oração do Terço em casa e se possível em família. O tempo de confinamento que estamos a viver leva a que descubramos a virtudes da Igreja doméstica, a encontramos o espaço e o tempo para cuidarmos da nossa vida interior, dos anseios mais profundos na nossa alma que nos fazem encontrar a luz mesmo quando existem no mundo tantas trevas.

 Umas das invocações que se podem fazer no final da oração é: Nossa Senhora do Rosário de Fátima, salvai-nos! Salvai Portugal e o mundo inteiro! A verdade é que O Salvador do Mundo é Jesus. Ele na Cruz aceitou tomar sobre si as consequências do mal e do pecado da humanidade inteira e morreu, foi sepultado e desceu às sombrias regiões da morte, mas ao terceiro dia ressuscitou pelo poder de Deus e apareceu a quem se tinha tornado seu discípulo para que fossem testemunhas deste Amor de Deus oferecido gratuitamente aos homens.  

A Virgem Maria é aquela que mais intimamente se uniu a este Mistério de Graça que transforma a vida e, por isso, a sua missão é ser medianeira e intercessora por todos nós que lhe fomos dados como filhos e nos conduzir sempre de novo ao Amor de Deus no encontro com o seu Filho Jesus. Ela salva porque nos leva ao Salvador. Ela salva porque não desiste de nos amar e revelar que nenhum mal é maior que a Graça de Deus. Ela salva porque acolhe-nos a todos sem fazer acepção de pessoas. Ela salva porque aceita ser para nós instrumento da misericórdia do Salvador.

São João Paulo II lembrava na Carta que escreveu sobre a oração do Rosário (nº 41): “A família que reza unida, permanece unida. O Santo Rosário, por antiga tradição, presta-se de modo particular a ser uma oração onde a família se encontra. Os seus diversos membros, precisamente ao fixarem o olhar em Jesus, recuperam também a capacidade de se olharem sempre de novo olhos nos olhos para comunicarem, solidarizarem-se, perdoarem-se mutuamente, recomeçarem com um pacto de amor renovado pelo Espírito de Deus. (…) Retomar a recitação do Rosário em família significa inserir na vida diária imagens bem diferentes - as do mistério que salva: a imagem do Redentor, a imagem de sua Mãe Santíssima.”

Aprendamos com Maria a pôr o nosso olhar e a nossa esperança no Senhor que nos salva e dá sentido à nossa vida, mesmo àquilo que não entendemos e temos dificuldade em aceitar. Com ela aprendamos a ser todos de Deus para sermos cada vez mais uns para os outros!

Pe. Ricardo Franco
Edição 1280 - 1 de Maio de 2020



A humanidade renovada!

O tempo que estamos a viver é uma interpelação muito séria a toda a humanidade. O Papa Francisco na Bênção ao Mundo com Indulgência Plenária realizada no dia 27 de Março referia na sua meditação: “Chamas-nos a aproveitar este tempo de prova como um tempo de decisão. Não é o tempo do teu juízo, mas do nosso juízo: o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é. É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros”.

Parece-me que uma grande maioria das pessoas está à espera que passe esta tremenda tempestade para poder voltar à correria de todos os dias, fazendo o que sempre se fez. Eu questiono-me: Será essa a atitude mais correcta? Voltarão as coisas a ser como eram antes? Quanto tempo demorará a chegar a ansiada normalidade de antes da pandemia? Pessoalmente penso que nos será mais útil a reflexão do Santo Padre: este é o tempo de fazermos um juízo, de pararmos e fazermos um discernimento sobre tudo aquilo que agora nos é dado a viver. O que é cada um aprendeu com esta situação? Quais as lições para o futuro? A nossa forma de encarar a vida e os outros será a mesma? Quais os horizontes da nossa existência?

A dimensão do mal e as suas terríveis consequências ainda estão longe de ser totalmente conhecidas, porque todos os dias existem dados novos e o que era projectado hoje como expectável depressa pode mudar, porque as variáveis são imensas. Hoje é difícil fazer uma programação a longo prazo.

Por outro lado existe uma proliferação de bem! Vemos diariamente exemplos de superação dos próprios limites, de serviço abnegado e persistente, de criatividade engenhosa e espontânea, de generosidade atenta e gratuita e, tantas manifestações de humanidade na sua expressão mais bela. Todas permitem que olhemos os outros com um sorriso e de forma agradecida os saudemos com salvas de palmas, para lhe mostrar que não estão longe do nosso coração. A gratidão faz-nos crescer na capacidade de amar.  

Hoje o nosso vocabulário volta a ter palavras que pareciam em desuso e sem contexto para serem utilizadas, uma vez que, as acções correspondentes estavam desprezadas e desvalorizadas: obediência, sacrifício, renúncia, solidariedade, responsabilidade, bem comum, família, são algumas das atitudes e dos valores, que nesta altura ganham uma importância decisiva, porque nos implicam a todos na procura de um caminho comum para ultrapassar esta terrível provação. Como seria importante que nos deixássemos contagiar positivamente por esta descoberta do fazer bem, do cuidar do outro, da atenção ao mais débil, da corresponsabilidade do viver em sociedade.

O Santo Padre referia ainda na mesma meditação: “Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso «eu» sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos”.

A idolatria do eu, dos interesses egoístas e mesquinhos, da preocupação com o superficial e descartável, tudo isso deixa de ser possível, porque este é o momento para nos centrarmos no essencial. O mal que enfrentamos é invisível aos nossos olhos e tem uma capacidade tremenda de se transmitir num contágio silencioso e nefasto que não escolhe apenas alguns mas ataca a todos de igual modo. Só é possível vencê-lo se todos estiverem atentos e conscientes das suas responsabilidades. O ‘cada um por si’ é uma sentença de mal para todos. É uma verdade muitas vezes esquecida e ignorada!

Espero que cada vez mais possamos caminhar para uma visão mais correcta do que é viver em sociedade e de como é fundamental aprendermos as dimensões essenciais que nos fazem ser pessoas e permitem viver de forma saudável uns com os outros.

A Páscoa que estamos a viver, fala-nos da novidade do Amor de Deus revelada da Ressurreição de Jesus como o poder que vence o mal. É dessa experiência que nasce a Igreja. A comunhão dos discípulos é obra do Espírito de Deus derramado sobre a humanidade inteira no alto da Cruz de Jesus. Espero e acredito que também agora o Senhor quer passar na vida de todos nós para nos ensinar a viver alicerçados nesta novidade do Amor.

Pe. Ricardo Franco
Edição 1279 - 17 de Abril de 2020



A Páscoa das nossas vidas!

A Páscoa é a festa das festas!

Mas como é vamos poder fazer festa se nem sequer podemos sair de casa? Como é que podemos estar felizes se estamos com medo? O que é que há para festejar quando vivemos um tempo de tantas incertezas e sem perspectivas concretas de quando é que tudo isto vai passar? Estas e muitas outras perguntas podem ecoar em nós quando confrontados com a realidade que todos vivemos, mas o que está de verdade aqui em causa são outras questões e são essas é que nos devem fazer pensar: Quem sou eu? Donde venho? Para onde vou? A Páscoa é a resposta de Deus a estas inquietações decisivas da vida, hoje e sempre! A verdade é que Deus nos ama e só n’Ele podemos ter Esperança. Ele jamais nos abandona, por isso confiemos-Lhe as nossas vidas!

Para quem tem a graça da fé, enquanto dom divino que ilumina a vida, a história não é um sucedâneo de acasos, de sorte ou de azar, mas nela está sempre presente Deus à nossa espera nas encruzilhadas dos caminhos que teimamos em percorrer apesar de sabermos que neles apenas encontramos caricaturas de felicidade e bem-estar.

O desafio é viver o Mistério Pascal na experiência mais maravilhosa da eternidade na nossa vida! Mas este ano não o podemos fazer no mesmo espaço. Não sei porque é que tem de ser assim, mas talvez seja o Senhor a dizer que muitas vezes nos esperou e preferimos estar onde Ele não tinha lugar. Agora permite que tenhamos sede neste deserto quaresmal que se estende durante a Páscoa para que aprendamos as verdadeiras prioridades da vida. Somos convidados a viver a Páscoa à maneira dos primeiros cristãos, como autênticas Igrejas domésticas. Uma grande família de muitas famílias, cada uma em suas casas.

Em verdadeira comunhão de Espírito, vivamos a Semana Maior dos cristãos e preparemos de modo especial a Noite Santa da Vigília Pascal. Permiti que faça convosco um pequeno itinerário:

Na escuridão da noite surge um fogo e deste acende-se um grande círio, uma coluna de cera, símbolo de Cristo, verdadeira e única luz do mundo, vencedor das trevas da morte. Cristo sai vitorioso do sepulcro, como o fogo de Deus que destrói a morte e purifica o homem da escravidão do pecado. Cristo é a Luz do mundo e nós desde o momento do nosso baptismo, verdadeiro nascimento do Espírito, trazemos connosco essa luz que jamais se extingue e que “nos leva mais longe”.

A noite da memória do Amor permanente de Deus. Abrimos as Escrituras: e reconhecemos a sua presença na história desde o momento da criação do mundo onde se contempla a sua imensa bondade e o poder de vida da sua Palavra; com Abraão aprendemos a lição mais bela da fé no abandono total à sua Providência; vemos o seu poder grandioso em fazer de uma multidão de escravos o seu Povo Eleito manifestando a sua glória na travessia do Mar Vermelho; contemplamos o seu desígnio de vida e de graça pela boca dos profetas que nos revelam a sua aliança de amor, a sua imensa sabedoria e como Ele nos recria nas fontes de água viva; com São Paulo preparamos a nossa Profissão de Fé porque a morte do pecado é vencida na ressurreição de Jesus e n’Ele aprendemos a viver a liberdade dos filhos de Deus para a qual fomos criados; na escuta do Evangelho da Ressurreição somos convidados a fazer esta experiência de vermos o túmulo vazio e a reconhecer que Jesus está vivo na nossa vida.

A noite da vitória de Jesus e a de todos quantos aceitam com Ele a vontade do Pai e recebendo a água sobre as suas cabeças renovam em comunidade as promessas do baptismo, afirmação da nossa pertença a Cristo e n’Ele ao próprio Deus. Como é belo viver sabendo que nos está prometida a eternidade. As portas do paraíso estão de novo abertas e é para lá que caminhamos enquanto filhos degredados de Eva redimidos pelo sacrifício redentor do Filho de Maria.

A noite do banquete de delícias. O Senhor é o alimento que nos sacia. No altar da Eucaristia o pão da escravidão do Egipto é transformado no verdadeiro maná descido do céu para dar a Vida ao mundo, o cálice com vinho não significa apenas a aliança feita por Deus com o seu povo escolhido mas é de verdade o sangue da Aliança eterna e definitiva do seu Amor pela humanidade inteira.

Cristo nesta Páscoa está vivo e quer celebrar connosco. Aproveitemos esta oportunidade e com Jesus ofereçamos a nossa vida ao Pai. Façamos das nossas vidas verdadeiras páscoas, deixemos que Deus irrompa com o seu Amor em nós e nos ensine o caminho da eternidade.

Cantemos o mistério e deixemo-nos surpreender: “De nada nos serviria ter nascido se não tivéssemos sido resgatados! Oh, admirável condescendência da vossa graça!  Oh, incomparável predilecção do vosso amor!”.

A todos desejo uma Santa Páscoa na certeza de que estarei em profunda comunhão de Amor divino com todos!

Pe. Ricardo Franco
Edição 1278 - 3 de Abril de 2020



Então e agora?!...

Nos últimos dias sempre que desperto do sono e me lembro da situação que estamos a viver ainda me parece difícil de acreditar. Será mesmo real? O mundo está mesmo a enfrentar um vírus, que ninguém é capaz de ver, mas cujos efeitos podem ser devastadores, e que por isso nos obriga a mudar totalmente a nossa forma de viver?

A verdade é que a realidade nos surpreende e nos faz tomar consciência de uma forma generalizada que a ideia de que somos os senhores da vida e da história é uma ilusão. Mas também é igualmente verdade que temos em nós as capacidades e potencialidades para podermos vencer esta guerra. O caminho está em cada um aprender a fazer aquilo que neste momento lhe compete fazer, segundo as suas responsabilidades, obedecendo aos interesses do bem comum.

Os tempos são tremendamente difíceis e colocam-nos à prova. É importantíssimo que não nos deixemos conduzir pelo medo porque este só serve para nos incapacitar e destruir, na medida em que nos aprisiona na nossa imensa fragilidade e pequenez face ao poder do mal. Sejamos audazes e utilizemos o agora da nossa existência como um momento de aprendizagem para o nosso futuro. É verdade que não temos todas as respostas e as perguntas e incertezas estão sempre a aparecer. Contudo, vemos já hoje sinais que não é possível ficarmos indiferentes, como a disponibilidade de tantos para fazer face a este terrível inimigo mesmo com o custo de pôr em perigo a sua própria vida.

O sacrifício de todos eles é uma lição belíssima de humanidade, porque está repleto da força invencível do amor ao próximo! A nós cabe a gratidão reconhecida e a não nos deixarmos jamais enganar pela terrível lógica de que “com o mal dos outros estou eu bem!”. Acredito que este tempo nos pode ajudar a conhecermo-nos na medida em que nos mostrará qual é a nossa capacidade em estarmos comprometidos, de facto, com o bem de todos os outros e não só com o dos que nos são próximos.

É importante que esta quarentena forçada nos faça reflectir em dimensões essenciais, porventura desvalorizadas, face à forma desenfreada e sem rumo como levamos a nossa existência. A consciência da nossa interdependência desde o mais simples mas essencial pessoal de limpeza até à mais alta figura do Estado, de como necessitamos de estar próximos dos outros e não nos basta a comunicação virtual, a importância de sabermos usar bem o nosso tempo com quem é mais importante para nós, são algumas das questões que agora vale a pena levar muito a sério para sabermos vivermos daqui em diante. 

O grande desafio é vivermos o agora com esperança. O Papa Bento XVI afirmava de forma profética na sua Encíclica Spes Salvi sobre a Esperança Cristã o seguinte: “Temos a possibilidade de livrar a nossa vida e o mundo dos venenos e contaminações que poderiam destruir o presente e o futuro. Podemos descobrir e manter limpas as fontes da criação e assim, juntamente com a criação que nos precede como dom recebido, fazer o que é justo conforme as suas intrínsecas exigências e a sua finalidade. Isto conserva um sentido, mesmo quando, aparentemente, não temos sucesso ou parecemos impotentes face à hegemonia de forças hostis. Assim, por um lado, da nossa acção nasce esperança para nós e para os outros; mas, ao mesmo tempo, é a grande esperança apoiada nas promessas de Deus que, tanto nos momentos bons como nos maus, nos dá coragem e orienta o nosso agir”.

O cristão sabe que a Esperança é um dom de Deus concedido gratuitamente a quem se deixa conduzir pela Fé e vive animado pelo seu Amor. Não se trata de algo mágico ou automático porque a disponibilidade para o receber requer que deixemos de fazer das nossas lógicas individuais critérios da verdade para nós e para os outros. O nosso mundo precisa de pessoas convertidas ao amor, dispostas a fazer da sua existência um caminho de bem para os outros.

Este é um tempo novo e, para o vivermos bem, precisamos do esforço e do compromisso de todos.

Pe. Ricardo Franco
Edição 1277- 20 de Março de 2020