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O poder das palavras!

Há uns anos contaram-me uma história que aqui procuro reproduzir: «São Felipe Néri era um padre conhecido pelas penitências criativas que dava aos seus fiéis. Certa vez uma mulher veio confessar-se dizendo que cometia o pecado de falar mal do próximo. Disse ainda que depois que se confessava acabava sempre por cair novamente no mesmo pecado. São Felipe Néri ouviu atentamente a confissão da mulher e deu-lhe a seguinte penitência: ela deveria trazer-lhe uma galinha e depená-la enquanto caminhasse pelas ruas de Roma.

Apesar de achar muito estranho a penitência a mulher obedeceu ao confessor. Noutro dia ela percorreu as ruas de Roma depenando uma galinha, e assim que chegou junto do padre com a galinha depenada perguntou-lhe o que mais teria de fazer. São Felipe disse-lhe então: “Trouxeste a galinha depenada, mas eu também preciso das penas. Agora, volta por todas as ruas pelas quais caminhaste e recolhe uma a uma as penas da galinha. E presta atenção, não deixes sequer uma pena esquecida”. A mulher, espantada, disse: “Mas, padre, isso é impossível! Com o vento e toda agitação da cidade nunca poderei recolher todas as penas!”. Respondeu o Santo: “Eu sei, minha filha. Espero que tu tenhas compreendido a lição. A tua maledicência assemelha-se a essas penas. As palavras ditas sem compaixão espalham-se e depois não há como recolhê-las.”»

Impressiona-me a impunidade com que actualmente se podem dizer as maiores barbaridades sem que isso tenha consequências práticas a não ser o mal que se faz aos outros. Em nome da liberdade de expressão é possível dizer quase tudo sem esperar grandes repercussões. As redes sociais ampliaram este fenómeno de tal forma que se torna terrivelmente nocivo e perigoso para a vida em sociedade. As palavras escritas ou proferidas sem recta intenção e de forma insensata facilmente se tornam motivo de violência e injustiças.

O Apóstolo São Tiago, na única carta que nos deixou, escreve sobre a importância do domínio da língua de uma forma incisiva (Tg 3, 1-12) e alerta os cristãos para os perigos: «Vede como um pequeno fogo pode incendiar uma grande floresta! Assim também a língua é fogo, é um mundo de iniquidade; entre os nossos membros, é ela que contamina todo o corpo e, inflamada pelo Inferno, incendeia o curso da nossa existência.» (Tg 3, 5c-6) Não será apenas por isto que a língua é dos primeiros órgãos a corromper-se depois da morte, mas a verdade é que muitas vezes esta foi instrumento de destruição e desgraça pelo veneno que destilou à sua volta.

Acredito que para se poder falar é fundamental aprender a ouvir, e se conheçam os factos sobre o assunto que queremos expressar uma opinião. Mais do que dizer qualquer coisa sobre tudo, é importante que se saiba falar bem e com propriedade do que é mais importante para nós e possa fazer bem aos outros. O Papa Francisco alerta, imensas vezes, para os perigos da maledicência, de forma muito veemente: «os coscuvilheiros são pessoas que matam os outros, porque a língua mata, é como uma faca, tenha cuidado, as pessoas coscuvilheiras são terroristas, atiram a bomba aos outros e vão embora» e alerta para o facto terrível de que «é grave viver com comunicações não autênticas, porque impedem relações recíprocas e amor ao próximo, porque onde há uma mentira, não há amor

Há muito tempo ensinaram-me uma coisa muito simples e que me tem sido muito útil para poder viver em sociedade de uma forma equilibrada e justa: “quando apontas o dedo a alguém, lembra-te de que tens sempre pelo menos três a apontar para ti!”. A autocrítica ajuda-nos a reflectir melhor na forma como nos dirigimos aos outros, ainda que estejamos plenamente convencidos de que os seus actos são incorrectos. De uma coisa podemos ter a certeza: não é no dizer o que se quer sem atender às consequências que estamos a contribuir para o bem de alguém.

As palavras têm poder, a sabedoria está em saber usá-lo para fazer o bem, construir pontes e criar unidade entre as pessoas. É mais fácil dizer mal, mas esse não é certamente o caminho que nos fará felizes.

Pe. Ricardo Franco
Edição 1335 - 18 de Novembro de 2022