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O troféu partido!

O mundo em que vivemos é uma obra maravilhosa da criação de Deus. A natureza está repleta de manifestações de beleza onde podemos contemplar a magnificência do seu criador. O primeiro poema da criação presente no livro do Génesis (Gn 1, 1-2, 4a) tem como refrão a afirmação da bondade de Deus fruto da obra das suas mãos (Cfr Gn 1, 4.10.12.18.21.25.31).  Em hebraico, o termo thôb é usado indistintamente com o mesmo significado de bem, bom e belo, o que também se passa com o seu sinónimo em grego de kalôs. O autor bíblico quis deixar claro que toda a Criação tem inscrita em si mesmo um desígnio de beleza e bondade. A beleza e bondade são constitutivas da nossa realidade e são a verdade que nos edifica como criaturas. A contemplação do que é belo faz-nos bem, e quando dedicamos a nossa vida a fazer o bem encontramos beleza na nossa existência.

O mundo precisa de descobrir esta verdade e rejeitar tudo o que são enganos de uma sociedade decadente com ideologias e práticas que a desfiguram de forma avassaladora. Vivemos num tempo sem critérios nem valores onde o relativismo ideológico, o culto do vazio, a desconstrução identitária, assumem proporções assustadoras e com resultados imprevisíveis. Um dos últimos exemplos foi o recente Festival da Eurovisão da Canção realizado em Malmo, na Suécia.

Lembro-me que quando era mais novo este era sempre aguardado com muita expectativa e apesar dos interesses e jogos de bastidores dos países mais influentes (agora chamados de “Big Five”), acima das polémicas havia a música. Hoje a Eurovisão é um instrumento ideológico poderosíssimo devido à sua enorme mediatização, e caracteriza-se por ultrapassar quaisquer limites que possam existir a nível da moral e dos costumes básicos da sociedade. A música é, practicamente, secundária face a tudo o mais que está em jogo.  

Não vi todas as canções a concurso, mas desde logo a que venceu o concurso mostra o que se valoriza neste mundo ocidental. A canção da Suíça cujo título - Broke the Code - é desde logo revelador da ideologia que a fundamenta, com um intérprete que se apresenta com o género não binário (pessoa que não se encontra na divisão binária de género homem/mulher; também designa um termo geral, uma vez que há mais formas de percepção de género que encaixam nesta, como demigénero, género-fluído ou poligénero), com uma letra que exalta o individualismo, que quebra todas as correntes a uma vida social com regras estabelecidas, e promove o relativismo de se ser a verdade de si mesmo.

Outro exemplo é a canção da Irlanda cujos intérpretes se apresentaram como demónios, numa música que fala sobre o fim do mundo, que faz a apologia da destruição e de acabar com tudo o que possam ser bons sentimentos, tudo isto envolvido por uma apresentação em palco que era um autêntico culto satânico.

Estas e outras canções (não tive interesse em ver todas!) revelam como estamos num ponto onde se promove o horror do feio e a negação de tudo o que possa ser a edificação do bem comum. Um dos comentadores da transmissão portuguesa referia-se a algumas das apresentações como arte performativa, o que pode ser correcto segundo o significado do termo, mas a meu ver aquilo que é apresentado é, sobretudo, «deformativo» e degradante da pessoa humana. Chegamos a um ponto em que parece que vale tudo porque no fundo as coisas não valem nada.

Talvez não seja apenas um acidente infeliz a circunstância do vencedor ter partido o troféu quando comemorava em palco depois da última actuação, mas uma verdadeira parábola do que tinha acontecido neste Festival onde quem venceu de facto não foi a música.

Pessoalmente, ajudou-me imenso ter ido logo no Domingo à noite à Procissão das Velas a Fátima porque o que ali se experimenta de beleza, naquele mar de luz que irrompe a noite durante a recitação da oração do Rosário, faz bem e cura as feridas do mal porque nasce da verdade do Amor aprendido com Maria do seu Filho Jesus. Estar ali é entrar mais fundo no mistério da nossa existência e permite acreditar que vale a pena continuar a acender a vela da fé no meio das trevas do mundo.

Pe. Ricardo Franco
Edição 1369 - 17 de Maio de 2024