Pesquisa   Facebook Jornal Alvorada
Login

Login na sua conta

Username *
Password *
Lembrar-me

Criar uma conta

Campos marcados com (*) são obrigatórios.
Nome *
Username *
Password *
Confirmar Password *
Email *
Confirmar email *
Captcha *
Reload Captcha

Valeis muito mais!...

Hoje quero voltar a falar sobre a Eutanásia. À hora que escrevo ainda não sei o resultado da votação das propostas dos projectos lei que tornam o acto de matar uma pessoa doente e em grande sofrimento legal no nosso país. Já referi neste espaço por diversas vezes a minha total oposição a esta legislação, ao não reconhecer legitimidade aos maiores partidos do nosso espectro político para poderem decidir numa matéria tão essencial quando foram omissos nos seus programas eleitorais e porque o que se pretende fazer não é acabar com o sofrimento mas matar quem sofre.

O que está em causa verdadeiramente é a forma como vivemos e como nos podemos tornar melhores pessoas construindo uma sociedade onde todos têm lugar. Uma sociedade só pode evoluir se aprende a superar as dificuldades e não desiste dos desafios permanentes da existência desde o momento da concepção até ao ocaso da vida. A vida é uma aprendizagem e o que nos torna melhores pessoas é estarmos disponíveis para darmos sempre mais de nós mesmos em favor do bem comum.

Nos meus primeiros anos de seminário tive a graça de ir com um padre amigo visitar uma das obras mais impressionantes do Padre Américo: O Calvário de Paço de Sousa. Nesta casa eram recebidas todas as pessoas que a sociedade tinha rejeitado devido a sofrerem de graves incapacidades físicas e mentais. Fiquei impressionado com muitas situações de vida que ali encontrei, mas o que falou mais fundo no meu coração, e me fez estar em silêncio durante alguns dias, foi ver a forma como estas pessoas eram tratadas. O cuidado, o carinho, o zelo, a persistência, o ambiente de tranquilidade no meio de tanto sofrimento, fez-me pensar se alguma vez seria capaz de amar assim, numa gratuidade total de quem dá de si sem esperar nada em troca porque o outro era incapaz de o fazer.

O sofrimento é uma realidade atroz da nossa existência. Mas quando há amor verdadeiro, o que antes parecia impossível de aceitar e compreender, ganha um misterioso sentido de bem. Aquelas pessoas estavam em situações irreversíveis, nunca iriam ficar curadas dos seus padecimentos, mas todos dias cumpriam uma missão extraordinária ao ensinarem outras a belíssima linguagem do amor. Naquele dia desejei que me também eu aprendesse a amar assim porque de outra forma a minha vida seria muito pobre.

Quando visitei o cemitério ali existente foi claro para mim que nenhuma daquelas vidas tinha sido menos valiosa porque ali estava um testemunho de gente muito amada.

 Hoje continuam a existir imensas situações de abandono, de pessoas desprezadas e rejeitadas por se encontrarem em situações de fragilidade extrema. O que fazer diante deste flagelo que desmascara uma sociedade que se faz passar como sendo de progresso e bem-estar? Será que podemos continuar a viver como se o mal dos outros não nos importasse? Ou vivemos adormecidos numa mentalidade egoísta e mesquinha que esconde os débeis e vende a mentira que o sofrimento tira dignidade à vida?

A eutanásia é uma mentira porque só tem uma boa morte quem experimenta até ao seu último suspiro que a sua vida vale mais do que o sofrimento que experimenta. Quem está no calvário de uma vida repleta de dor precisa de ser amado e acompanhado, e nunca sentir que está a mais neste mundo porque o seu prazo de validade chegou ao fim.

A maior dor da vida não é física, mas é a que se experimenta no coração de quem se encontra só e com medo angustiante de ter deixado de valer alguma coisa para os outros. O que aqui está em causa não se funda em crenças religiosas, mas termino esta breve reflexão com uma Palavra belíssima e reconfortante de Jesus: “Não se vendem cinco pássaros por duas pequeninas moedas? Contudo, nenhum deles passa despercebido diante de Deus. Mais ainda, até os cabelos da vossa cabeça estão contados. Não temais: valeis mais do que muitos pássaros.” (Lc 12, 6-7)  

Pe. Ricardo Franco
Edição 1275- 21 de Fevereiro de 2020