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“Vivemos de Páscoa em Páscoa, até chegarmos à Páscoa eterna!”

Todos nós, enquanto pessoas, somos uma construção que acontece fruto da nossa vivência familiar e da nossa convivência com os outros. A família é sempre a base na qual vai sendo edificada toda a mundividência que recebemos, na escola, nas nossas relações interpessoais, e nos diversos ambientes em que a vida acontece. Ao longo da nossa história existirão sempre pessoas cuja presença deixa marcas e são dons de graça que nos enriquecem. Recordá-las é ocasião de expressar gratidão, de fazer uma homenagem sentida pelo muito que significam para nós, e receber de forma responsável o testemunho que deixam quando partem para a eternidade.

O Pe. Luís Manuel Pereira da Silva, Cónego e Pároco da Sé Patriarcal de Lisboa, é uma dessas pessoas que no dia 12 de Junho, aos 63 anos, passou para junto do Pai. Na sequência de grandes vultos da Reforma Litúrgica em Portugal, Monsenhor Pereira dos Reis, Pe. Manuel Luís e Cónego José Ferreira, ele acolheu de forma magistral a tradição recebida e foi incansável no seu entusiasmo, na generosidade, e na missão de levar multidões a conhecer e a viver a beleza da vida celebrativa da Igreja. Foi meu professor, irmão no sacerdócio e amigo, e tive-o sempre como mestre na senda do Pe. Zé Ferreira e do Pe. Joaquim Duarte que me ensinaram o zelo e o amor pela liturgia.  

A Liturgia é a obra de Deus pela qual nos é comunicada a graça do Mistério Pascal de Cristo, e é também obra da comunidade cristã na medida em que realiza e manifesta a Igreja como sinal visível da comunhão de Deus e dos homens por Cristo; empenha os fiéis na vida nova da comunidade, e implica uma participação «consciente, activa e frutuosa» de todos. Esta dupla afirmação da Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II é fundamental para uma correcta compreensão da celebração cultual em Igreja.

A Páscoa é o centro de todas as acções litúrgicas. Diz o Catecismo da Igreja Católica: “Na liturgia da Igreja, Cristo significa e realiza principalmente o seu mistério pascal. (…) É um acontecimento real, ocorrido na nossa história, mas único; todos os outros acontecimentos da história acontecem uma vez e passam, devorados pelo passado. Pelo contrário, o mistério pascal de Cristo não pode ficar somente no passado, já que pela sua morte, Ele destruiu a morte; e tudo o que Cristo é, tudo o que fez e sofreu por todos os homens, participa da eternidade divina, e assim transcende todos os tempos e em todos se torna presente. O acontecimento da cruz e da ressurreição permanece e atrai tudo para a vida”.

Os ritos são meios pelos quais a obra da redenção de Cristo se actualiza na vida dos fiéis. O Pe. Luís nunca se cansava de afirmar com uma alegria e vivacidade contagiante: “Vivemos de Páscoa em Páscoa até alcançarmos a Páscoa eterna!”. E hoje este refrão ressoa ainda mais fundo porque ele experimenta já a verdade que sempre ensinou. A Liturgia insere-nos na acção salvífica de Cristo, somos introduzidos no Mistério do Amor de Deus que quer fazer-nos participantes da sua vida.

Santo Agostinho sintetiza de forma belíssima a sede que todos sentimos: «Fizestes-nos para Vós e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em Vós». Quando celebramos em Igreja somos saciados na fonte de delícias que é Cristo, e nos é dada a viver uma plenitude que nos descansa.

A comunidade cristã precisa de redescobrir a beleza da vida litúrgica. É importante que não nos acomodemos ao que está mal na forma como celebramos, porque é a nossa vida que está em causa. Querer reduzir as celebrações a manifestações de piedade duvidosa sem consequências concretas na existência, esvaziá-las da densidade do mistério através de expressões pobres de uma afectividade exacerbada que não vai além da superficialidade do sentir, ou fazer da prática um cumprimento exterior de ritos e preceitos que se fazem sem saber bem porquê, são perigos constantes que é preciso vencer por um zelo evangélico de fidelidade à tradição da Igreja.

A verdade é Cristo oferecido a todos na Cruz, e nós unidos a Ele, para que vivamos a eterna bondade que nos salva. Quando formos à Igreja não nos esqueçamos disto e veremos como o mistério nos envolve numa presença de gozo eterno.

Pe. Ricardo Franco
Edição 1283 - 19 de Junho de 2020