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Duas corujas-das-torres devolvidas à Serra do Montejunto após recuperação no CRASM da Quercus

corujas CRASM 04062026

Duas Corujas-das-torres foram devolvidas esta tarde à natureza, na Serra do Montejunto, após um período de recuperação no CRASM - Centro de Recuperação de Animais Selvagens de Montejunto, equipamento gerido pela associação ambientalista Quercus e localizado na Tojeira, no concelho do Cadaval. Trata-se de uma espécie residente em Portugal que desempenha um papel ecológico fundamental no controlo de pragas agrícolas.

Numa publicação nas redes sociais, o CRASM informa que uma das aves de rapina noturna apresentava duas fraturas ao nível do fémur, enquanto a outra sofreu uma fratura de escápula (omoplata): “Após estes acontecimentos traumáticos e longas semanas de recuperação no CRASM, que incluíram cirurgias e ligaduras, ambos passaram para a etapa final de reabilitação. Numa instalação exterior, partilharam o espaço que lhes permitiu treinar o voo e a caça”.

A libertação das duas aves foi feita pelas mãos de duas estagiárias de Enfermagem Veterinária (na foto), que acompanharam de perto os seus cuidados ao longo de todo o processo de recuperação. O CRASM agradece a todos os voluntários e estagiários “que nos ajudam a garantir um desfecho positivo a histórias como esta, sobretudo a espécies como a Coruja-das-torres, que apresenta um estatuto de conservação de Quase Ameaçado”. Este estatuto, atribuído pela União Internacional para a Conservação da Natureza, significa que uma espécie animal não corre o risco imediato de extinção, mas está muito perto de entrar numa categoria de ameaça num futuro próximo.

Segundo dados do CRASM fornecidos ao ALVORADA, em 2025, o distrito de Lisboa foi responsável, por 44,2% da origem dos animais admitidos neste centro, sendo que o distrito de Leiria contribuiu com 31,3% dos animais admitidos, enquanto que o distrito de Santarém representou 21,5% dos ingressos de animais. O CRASM acolheu, no ano passado, 674 animais, encontrando-se 24 em recuperação no final de Dezembro. Nos últimos sete anos tem-se verificado um crescimento anual consistente no número de admissões, cerca de uma centena de animais por ano, de acordo com os dados revelados ao nosso jornal: 492 (2023), 593 (2024) e 674 (2025).

Localizado desde 2019 no sopé da mais alta montanha do Oeste, na vertente norte da serra, o CRASM tem como missão a recepção, tratamento e devolução à natureza de animais selvagens feridos ou debilitados. No distrito de Lisboa, e de acordo com os dados respeitantes ao ano passado de animais admitidos, os concelhos de Torres Vedras (11,8%), Lourinhã (5,4%), Cadaval (5,3%), Alenquer (3,8%) e Azambuja (3,4%), reflectem a estreita ligação territorial deste centro à região Oeste. No distrito de Leiria teve particular expressão os concelhos de Caldas da Rainha (8,7%), Leiria (5,6%) e Peniche (4,3%). Já no distrito de Santarém destacaram-se os concelhos de Santarém (4,8%), Rio Maior (3,8%) e Cartaxo (2,8%). Estes dados evidenciam, para a Quercus, a crescente abrangência geográfica da área de intervenção do CRASM.

Já quanto às principais entidades responsáveis pela entrega de animais foram a Guarda Nacional Republicana através do SEPNA - Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (39,5%), com especial destaque para o Destacamento de Torres Vedras (16%), e o ICNF - Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (36,8%), nomeadamente as equipas do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (29,2%). 

O CRASM tem como principal objectivo a recuperação de fauna selvagem debilitada, visando a sua reintegração no habitat natural. A diretora clínica, a médica veterinária Inês Silveira, sublinha que o centro “desempenha um papel relevante na valorização da Serra de Montejunto, na sensibilização ambiental da sociedade, na formação de estudantes universitários e na recolha de dados para projetos científicos”. Em relação aos animais acolhidos para recuperação nas suas instalações, a classe das Aves representou 83,4% das entradas, seguida dos Mamíferos (15,3%) e dos Répteis (1,3%). Entre as aves, destacaram-se as ordens Strigiformes (corujas, 18,5%), Caprimulgiformes (noitibós e afins, 15,4%), Passeriformes (pássaros, 14,5%) e Charadriiformes (aves limícolas e marinhas,13,2%). As espécies com maior número de admissões foram a Gaivota-de-patas-amarelas (72 registos), o Ouriço-cacheiro (64), o Andorinhão-pálido (60), o Mocho-galego (56), a Cegonha-branca (33), a Coruja-das-torres (33) e a Coruja-do-mato (32).

No ano passado, os registos revelam que a maior afluência de animais selvagens acolhidos pelo CRASM ocorreu nos meses de junho (19,3%) e julho (29,4%). Relativamente ao estatuto de conservação, 86,1% das aves pertenciam a espécies classificadas como ‘Pouco Preocupante’ (LC), mas foram acolhidas espécies classificadas como Quase Ameaçado (6,5%), Vulnerável (6,1%), Em Perigo (0,3%), Criticamente em Perigo (0,4%) e Não Avaliado (0,4%), de acordo com a Lista Vermelha das Aves de Portugal Continental e o Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental. Destacam-se, entre outras, um Abutre do-egipto, uma Cagarra e três Milhafres-reais.

Ainda segundo Inês Silveira, as causas de entrada mais frequentes foram a queda do ninho ou órfão (29,1%) e traumatismo de origem desconhecida (25,4%). “Importa, contudo, destacar os casos de cativeiro ilegal (1,5%) e tiro (0,9%)”. Dos 674 registos de 2025, 274 animais foram libertados (40,4%), 20 transferidos para outros Centros de Recuperação (2,9%) e 2 encaminhados para Parques Biológicos (0,29%). Registaram-se 355 mortes e entradas de cadáveres (52,6%), incluindo 23 animais já admitidos sem vida e 332 óbitos ocorridos no CRASM (181 eutanásias e 151 mortes naturais). “A taxa de recuperação em 2025 foi de 58,5%. Este cálculo inclui também 23 animais admitidos em 2024 que transitaram em recuperação para 2025. Excluem-se do total os animais que deram entrada já cadáver, os eutanasiados no momento da admissão por impossibilidade de recuperação e os transferidos para outros centros”, sublinha a responsável. Ao longo do ano, cerca de 33 voluntários e estagiários, de diferentes idades e formações, apoiaram o CRASM. 

Foram dinamizadas ainda actividades de Educação Ambiental, envolvendo a comunidade em diversas acções de sensibilização e aprendizagem sobre a conservação da biodiversidade. Entre estas incluem-se iniciativas em estabelecimentos de ensino, visitas guiadas ao CRASM e outras acções dirigidas à comunidade, num total de 15 actividades que contribuíram para a promoção do conhecimento e do respeito pela vida selvagem. No total, as actividades desenvolvidas permitiram o envolvimento de aproximadamente 1.200 participantes. “A presença em feiras e noutros eventos públicos permitiu ainda alcançar um público alargado”, sublinha ainda a Quercus.  Destaca-se, de forma particular, o apoio continuado do Fundo Ambiental, gerido pelo Ministério do Ambiente, que tem assumido um papel determinante na sustentabilidade e desenvolvimento do CRASM desde 2019.  

A Quercus gere três CRAS - Centros de Recuperação de Animais Selvagens: Para além do CRASM, conta com o CERAS (Castelo Branco) e CRASSA (Santo André, Litoral Alentejano).

Texto: ALVORADA. Foto: CRASM.