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Metade do Planeta passa a ter regulamento com entrada em vigor do Tratado do Alto Mar

terra planeta

Cerca de metade do Planeta passa no sábado a ter um regulamento para uma melhor gestão com a entrada em vigor do Tratado do Alto Mar, com Portugal a ser um dos países mais relevantes para o documento.

Debatido durante quase 20 anos, o tratado foi formalmente adoptado em Junho de 2023 e aberto à assinatura dos Estados a 20 de Setembro do mesmo ano, tendo hoje já sido ratificado por mais de 80 países. O documento entra em vigor 120 dias após a 60ª ratificação, o que acontece a 17 de Janeiro.

O Acordo de Biodiversidade Além da Jurisdição Nacional (BBNJ, na sigla original) é mais conhecido pelo Tratado do Alto Mar porque diz respeito à parte do oceano que não pertence à jurisdição de qualquer país. Se o oceano representa mais de 70% da superfície do Planeta, o alto mar é mais de metade dessa superfície, o que representa quase metade do Planeta.

É uma parte do oceano sobre a qual pouco se sabe “mas com um grande potencial”, disse à Lusa a bióloga Ana Colaço, especialista em mar profundo e investigadora do Instituto Okeanos, da Universidade dos Açores.

Nas águas mais superficiais do alto mar há grandes migrações, de atuns, baleias, tartarugas, tubarões e aves marinhas e Ana Colaço lembra que se trata de “um oceano sem fronteiras”, onde o tratado irá ajudar a uma melhor conservação e preservação, destacando que o documento tem em conta outros acordos já assinados, incluindo a convenção sobre biodiversidade que prevê a gestão e conservação de 30% do oceano global.

Essa conservação não é só nas águas administradas pelos países, é também no alto mar. “Temos de pensar como é que vamos geri-lo, de forma a preservar todos os seus recursos. E são bastantes”, disse a investigadora à Lusa.

O BBNJ tem como um dos grandes objectivos proteger a biodiversidade marinha em águas internacionais e permitir a criação de Áreas Marinhas Protegidas (AMP) no alto mar, além de estabelecer regras para uma partilha justa de benefícios.

Numa declaração à Lusa, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, destacou precisamente que o tratado representa “um avanço na governação global dos oceanos e na protecção da biodiversidade marinha”.

Passamos a dispor de novos instrumentos jurídicos ao nível das áreas marinhas protegidas, do acesso aos recursos genéticos ou da avaliação de impactes ambientais”, justificou a ministra.

Maria da Graça Carvalho apontou também a importância de Portugal no tratado ao estar “na linha da frente dos países que o aprovaram, reflectindo o empenho do Governo em agir em prol da protecção dos oceanos e de uma economia azul verdadeiramente sustentável”.

Tiago Pitta e Cunha, especialista em assuntos do mar e administrador da Fundação Oceano Azul, também em declarações à Lusa enfatizou o papel de Portugal na adopção de um tratado que estava há quase 20 anos em “negociações mornas”.

O grande impulso, disse, foram as Convenções das Nações Unidas para o Oceano (UNOC), “sendo que a que foi determinante para a adopção do Tratado do Alto Mar foi a de Lisboa, a conferência número dois [sobre o oceano]” da ONU que se realizou em Lisboa em 2022, tendo a do ano passado em França sido determinante para aumentar as ratificações do documento.

Pitta e Cunha destacou a importância do tratado mas também “o enorme sentido de responsabilidade de protecção do oceano, de governação do Planeta, que é novo neste tratado”, que diz respeito a uma área em que poucos países têm grandes interesses directos, porque não lhes aumenta as perspectivas económicas.

É por isso que eu digo que este tratado estabelece um vínculo directo, pela primeira vez, entre o oceano e o Planeta”, afirmou.

Ana Colaço também salientou que até agora faltava um acordo que permitisse a gestão do oceano de ninguém, que promovesse a conservação, o uso sustentável e a partilha de informação.

Este tratado é extremamente importante porque começou a criar uma ordem onde não havia ordem, para a preservação, a conservação e uso sustentável do oceano”, resumiu.

Texto: ALVORADA com agência Lusa
Fotografia: Direitos Reservados (arquivo)