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Em nome da música

Conheci o Sr. Mário Costa em Junho de 1974. Estava sentado numa daquelas cadeiras verdes de chapa metálica perfurada que existiam na sala de ensaios da Banda da Lourinhã, no antigo quartel dos bombeiros. A seu lado, um miúdo dava uma lição de solfejo: dó-mi-sol-si-ré-fá-lá-dó-si-sol-mi-dó-lá-fá-ré-lá (mais coisa, menos coisa), como sabem todos os que um dia travaram conhecimento com Freitas Gazul. Foi o início de uma amizade para a vida.

Ao Sr. Mário, a seu irmão Ernesto e ao Estêvão Pereira se deve a sobrevivência da Banda, que por essa altura vivia já um período crítico que culminaria na segunda metade de setenta com o cancelamento de alguns ensaios por falta de músicos. Foram eles os formadores da geração seguinte de executantes, numa actividade de teimosia e dedicação em que se confundiam a noção do valor cultural da sociedade filarmónica e um prazer enorme na música que era, estou certo, a grande paixão de todos eles e o motor que os impulsionava. Por isso, não lhes deve ter custado muito o tempo que lhe dedicaram: a música fazia, simplesmente, parte das suas vidas.

A esta actividade associava-se a persistente acção do Carlos Sousa na guarda do arquivo, património valioso de qualquer associação musical, sobretudo numa época em que não existiam as actuais formas de arquivamento e acesso aos documentos.

Mas não era só isto que caracterizava o Sr. Mário. À disponibilidade para o ensino da gente nova, ele juntava outras qualidades muito próprias: o perfil sóbrio de quem construía pontes para o entendimento entre as pessoas - era um homem de paz e de uma sensatez exemplar; um grande optimismo, a que não era alheio certo sentido de humor sem espaventos, mas que o fazia rir amiúde (recordo-o agora, homem feito, a rir por vezes como um rapaz, quer dizer, com uma franqueza inocente, de quem olha os pequenos aspectos da vida com curiosidade e alegria); e a esclarecida inteligência que o levava a fazer com naturalidade o que era bom, o que era preciso e que ele sabia fazer para que a Banda perdurasse e a música continuasse a fazer parte da vida de todos nós.

Agora que ele mudou de lugar e já não o podemos ver sentado na cadeira verde dos músicos, agora que novas gerações tomaram assento e preenchem os naipes dos instrumentos da Banda, será de outra forma que o vamos ver, mas sempre encantado, sempre apaixonado e todavia sempre discreto, como em toda a sua vida: pois todas as vezes que a Banda tocar ele estará lá, na música, com a música e para a música.

Sérgio Tovar de Carvalho