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Carta Aberta aos (bis) Avós, Manuel ‘Seabra’ Filipe Anunciação e ‘São’ Maria da Anunciação Fonseca Ribeiro: a propósito de um trator - Parte I

Numa vida como a contemporânea, no espaço geográfico em que habitamos, repleta de objetos que se acumulam, dispensam, empilham, esta partilha arrisca-se a parecer ridícula, dir-se-á porém, ridícula[1] como só as coisas relacionadas com o amor o conseguem ser.

Ademais, acerca dos objetos, e da ilusão da sua representação, tão bem retratada no quadro do Magritte[2], que tornando-os evidentes, não os substitui, pode até negá-los, tenho regressado várias vezes ao livro de Bernard Stiegler[3] no interessante alerta deixado acerca destas representações e suas imputações numa sociedade de consumo, mas essa é toda outra conversa. Nós queremos falar-vos do trator do nosso (bis)avô.

Foi já na sempre abrupta despedida que a avó São comunicou que o trator ia sair de vez da adega, ia para outras pessoas, e pediu em jeito apressado para tirar uma última fotografia. Como amamos entrar naquela adega, repleta de tranças, que se chamam cabos, de cebolas e alhos penduradas no barrotes, das abóboras pousadas cuja sopa nos alimenta desde sempre, das batatas, do cedo e do tarde, de qualidades várias, tudo acolhido e recolhido naquele local escuro, sepulcral e sagrado, sucessivamente trazido da terra pelos teus braços com a ajuda do trator!

O ritual destas máquinas é curioso, para começarem a trabalhar usa-se uma corda que está pendurada nas traves do trator, circunda-se o motor, dá-se várias voltas: Um! Dois!Três!, puxa-se a corda com força, e Zaz! Toc-toc-toc-toc-toc, acordou! O motor pega e só se cala quando chega ao destino - não é aconselhável para quem anda cansado da cabeça razar uma destas máquinas, pode baralhar tudo cá dentro.

Apesar dos avisos de que na próxima temporada já não será assim, a rica adega lá se vai engalanando de cores douradas, ano após ano. Perante a tua persistência, sempre solitário na composição de fazendas que mais parecem jardins, resulta a grande lição: a força de vontade e o gostar pode muito mais que a dos músculos. Sei que não é alheia nessa força de vontade os desejos e pedidos da avó São, as sementes desta e daquela qualidade, seja de abóboras (cabaças) decorativas que no outono decoram as cozinhas e que em reminiscência urbana vemos à venda nas lojas mais tradicionais dos bairros de lisboa, seja de uma variedade de tomate diferenciada, sendo certo que os tradicionais não podem falhar.

Tânia Alexandre, com Helena, Constança, Laura e Henrique Proença

[1] No sentido dado por Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), em “Todas as cartas de Amor são Ridículas”.

[2]  “La trahison des images” A conhecida representação de um cachimbo, com a paradoxal menção de que isto não é um cachimbo “Ceci n’est pas un pipe”.

[3] A saber “Da Miséria Simbólica, volume I, A Era Hiperindustral”, publicado pela Orfeu Negro em março de 2018, com tradução de Luís Lima, a fls 26, no capítulo dedicado a “O simbólico na era do consumo: uma grande miséria mundial”, lemos assim: “a sociedade propriamente não existe, logo, a comunidade também não (…) para produzir o um, carrega (…) uma singularidade idiomática, ou seja ao mesmo tempo singular e comum... Esses agenciamentos são sustentatos por aquilo que designei por camadas epifilogenéticas, ou retenções terciarias, isto é, concreções de saberes e poderes nos objetos e dispositivos legados como coisas do mundo humano (…) Uma pá de trolha (…) carrega(m) uma memória de gestos e de funções que as projectam automaticamente para a camada mnemotécnica de todas as coisas enquanto coisas do mundo”, diremos, assim também o nosso trator!