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Câmara Municipal de Peniche quer substituir barracas no concelho por habitação condigna

Barracas Peniche Lusa 19022022

A Câmara Municipal de Peniche pretende erradicar barracas onde vivem quase três centenas de pessoas da comunidade cigana e tem em curso o projecto ‘Kher Nevo’, destinado à sua integração social.

A viver há mais de 30 anos num dos três acampamentos existentes no concelho, Sónia Cesteiro, 44 anos, aceita dar a cara pela “miséria” em que a família habita, com ratos e “sem condições” em casa. “Se tivesse melhores condições, mudaria do acampamento”, refere à agência Lusa, questionando logo de seguida: “Quanto não vale ter uma casa?!”

Ruben Marques, 33 anos, e a família já saíram do acampamento há sete meses, depois de conseguirem, com muita dificuldade, arrendar uma casa na cidade, para terem “mais higiene” e melhores condições habitacionais. “Saí porque queria viver em melhores condições e outros não saem, porque não conseguem alugar casa”, explica à Lusa o outrora vendedor ambulante e actual funcionário municipal, acrescentando que “a sociedade não aceita muito bem os ciganos”, daí a dificuldade que a comunidade tem em recorrer ao mercado de arrendamento.

Tendo como prioridade erradicar as barracas que servem de habitação no concelho, o município foi ao encontro da minoria através do projecto ‘Kher Nevo’, que na língua romani significa “casa nova”, estando para isso a trabalhar em várias vertentes. A autarquia criou uma equipa de mediadores interculturais para facilitar a comunicação com a comunidade e envolvê-la nas decisões.

José Silva, 29 anos, de etnia cigana e funcionário municipal, passou a desempenhar essas funções desde Setembro. O mediador intercultural desdobra-se em tarefas diárias muito diversas, desde transportar crianças da escola para a sala de apoio ao estudo, entregar convocatórias das escolas para os pais e ser o verdadeiro “elo de ligação entre a câmara e os membros da comunidade cigana”. “Há pessoas na câmara que explicam de uma maneira que os meus tios e primos não entendem e eu tenho de explicar de outra maneira”, conta José à Lusa.

Tendo em conta o nível baixo de escolaridade entre a comunidade, a autarquia criou uma sala de apoio ao estudo para as crianças e jovens ciganos que frequentam as escolas do concelho. A pensar na integração social da comunidade e na sua aceitação pela população em geral, foi também criado um programa na rádio local, a 102 FM, em que por cada edição semanal são dados a conhecer seus os hábitos e tradições, com relatos na primeira pessoa.  O concelho possui ainda vários projectos destinados a resolver problemas de carência económica.

Um trabalho que vai muito além de dar uma casa, refere à Lusa Vanda Duarte, adjunta do presidente da câmara. Na sua Estratégia Local de Habitação, a autarquia traçou como prioridade para os próximos seis anos erradicar as barracas e atribuir habitação condigna às 45 famílias da comunidade cigana. “Os três acampamentos são o principal foco, porque temos mais de 200 indivíduos na cidade e 50 a 60 nas aldeias. Estamos a falar de um número significativo de pessoas de etnia cigana no concelho que não têm direito a habitação”, refere a responsável. A estratégia passa também por resolver outros casos de habitação em mau estado de conservação e até de insalubridade. Apesar de, no total, mais de 300 famílias viverem em fogos de habitação social neste concelho oestino, há uma centena em lista de espera por uma habitação condigna. “Estamos numa zona em que os preços dispararam muito, temos muita procura e pouca oferta e, em termos de rendimento, os valores das rendas são extremamente elevados”, explica.

A Estratégia Local de Habitação prevê o aumento da oferta da habitação social, beneficiando mais 279 famílias, com 600 a 700 pessoas.

Texto: agência Lusa/ALVORADA
Fotografia: Lusa