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DIÁSPORA-COVID-19: testemunho de Clara Martins, com raízes na Moita dos Ferreiros, residente em França

claramartins

Como está a viver a Diáspora da Lourinhã este novo tempo, em que o centro das atenções é a pandemia da Covid-19? O ALVORADA iniciou a partilha de testemunhos de vida dos emigrantes lourinhanenses que se encontram espalhados pelos quatro cantos do mundo.

Neste tempo difícil que todos atravessamos, com uma pandemia que reduz ao máximo o contacto entre todos, queremos desta forma manter bem vivo o que nos une. Queremos contribuir para que quem esteja longe, fique mais perto de nós, na Lourinhã.

Partilhe e, caso tenha algum familiar e amigo que queira que o contactemos, para aqui deixar o seu testemunho, envie-nos mensagem pelo nosso Facebook ou para o endereço electrónico Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar..

Fique em segurança. Cuide de si e dos outros!

Este 43º testemunho é de Clara Martins, nascida em França, com raízes na Moita dos Ferreiros e residente em França onde está de novo há quase cinco anos. Exerce a profissão de mediadora imobiliária. Tem um filho, bombeiro profissional em Lisboa, na linha da frente. Vem a Portugal sempre que pode, três ou quatro vezes por ano abraçar os que ama.

Vivo perto de Paris e aqui continuamos de quarentena. O tempo ficou em suspenso. Curiosamente temos tido lindos dias de sol. As ruas estão vazias e olhamos para esta bela primavera a passar pela janela.

Aqui o confinamento começou a 16 de Março. Parecia surreal. Nem havia noção do que realmente isso poderia ser. Hoje, ainda tenho por vezes a sensação de ser protagonista de um filme. Toda a comunicação social estava então concentrada em números de doentes, mortes e comparações com outros países. Fomos organizando as nossas saídas com uma autorização que nós próprios redigimos e assinamos. “Eu..., declaro sair para fazer compras de primeira necessidade...”. A que ponto chegámos? As multas são de 135 euros para quem não tem a sua autorização escrita e se for multado várias vezes, o castigo pode ir até cinco anos de cadeia.

O distanciamento social é de um metro, no mínimo. Demoramos uma hora na fila para entrar num supermercado ou comprar pão. É autorizada apenas uma saída por dia de uma hora no máximo, se for para apanhar ar e com distância máxima de um quilómetro de casa. As consultas médicas são feitas por vídeo-conferência. O gel desinfectante desapareceu durante três semanas e agora é vendido a 15 euros cada litro. O que seria se o preço não fosse regulado pelo Governo. Não se encontram luvas e as escassas máscaras são reservadas aos profissionais de saúde e aos doentes.

Contudo, as pessoas começaram a fazer máscaras de tecido, que também já se vendem de mão em mão. Às 20h00 temos o ritual de aplaudir para agradecer aos profissionais de saúde e temos internet e telefone, que nos permitem estar minimamente ligados ao exterior. Hoje faltam pouco mais de nove dias antes do desconfinamento. Algumas máscaras chegaram de manhã às farmácias e alguns supermercados. Às 8h00 já se constatavam filas enormes. O Governo dividiu o território em três zonas, trata-se de um mapa de desconfinamento atribuindo cores para indicar as zonas de contágio permitindo assim, e não é ironia, confinar desta vez o vírus inimigo. Zona vermelha, zona laranja e zona verde. Não é permitido passar de uma zona para outra. O estado de emergência encontra-se prolongado até dia 24 de Julho. A partir do dia 11 de Maio as “autorizações de saída” já não serão necessárias se ficarmos num raio de 100 quilómetros de casa. Caso contrário, qualquer deslocação terá de ser justificada. As directivas são por vezes incompletas ou contrárias. Todo o tipo de informação sobre o como, o porquê ou o quando vai circulando e ficamos atordoados entre a estúpida verdade e a suposta mentira.

Parece que poderíamos viajar pela Europa a partir de 1 de Julho. Isso se não houver uma segunda vaga de contágio, o que neste caso nos levaria provavelmente para um novo período de confinamento. Entretanto, as multas de 135 euros passaram para 200 euros.

Depois de oito longas semanas de confinamento com noites mal passadas e dias de angústia temos imperativamente necessidade de regressar ao trabalho. No país dos Direitos do Homem, o Governo aplicou a sua política de Estado Providência mas a economia não pode estar mais tempo estrangulada. Continuar o confinamento irá provavelmente criar mais dificuldades do que propriamente o vírus. Legalmente e civicamente estamos autorizados a produzir. Os tempos de guerra não deixam lugar para alternativas.

Agora estamos em fase de aceitação. Viver em coabitação com o vírus. Estamos a colocar medidas necessárias para criar uma nova normalidade, antes de voltar, supostamente a trabalhar. Não se trata de um voltar de férias, nem de um voltar depois de uma baixa. Nada disso. Vamos para o desconhecido. Temos os olhos tapados e vamos avançar. Passo a passo. Esse é o caminho. Devagar, sem saber se vamos ter outra vaga com mais doentes e mais mortos. Avançar, porque temos de trabalhar. Parar é morrer, não é? Tenho de proteger o rosto e lavar as mãos. Posso ficar doente. Eu posso contaminar outra pessoa. A minha família, aos meus colegas, aos meus vizinhos, aos meus clientes... eu sou responsável pela saúde dos outros.

Contudo, e no meio de horrores, existem testemunhos de reencontros entre marido e mulher, pais e filhos que viviam na mesma casa sem terem momentos verdadeiros de partilha. Um irmão chateado que telefonou. Um amigo desaparecido que enviou uma mensagem...

Há dias aprendi que a palavra “crise” em japonês quer dizer “oportunidade”. Também neste fim do meu relato gostaria de acabar com um pensamento positivo: já vencemos tantas crises e de uma forma ou de outra saímos mais fortes. Envio um abraço ao meu filho, à minha família, às pessoas conhecidas e amigas e a todos vós. Um abraço de esperança.