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A justiça do: “Fazer por amor!”

Santa Teresa de Calcutá, um dia respondeu de forma magistral a quem a interrogava de como era capaz de cuidar assim dos doentes, sobretudo dos que mais repugnavam e cujo tratamento acarretava perigos para a sua própria saúde: “O senhor não daria banho a um leproso nem por um milhão de dólares? Eu também não. Só por amor se pode dar banho a um leproso.” Para muitos isto pode ser um devaneio de uma santa, algo que é impossível de fazer sempre, mas, eu acredito que é a verdade que dá sentido a toda a vida: “fazer por amor!”.  

A doença, enquanto dimensão de fragilidade inerente à nossa condição, é uma realidade comum a toda a humanidade, nesse sentido, a Declaração Universal dos Direitos Humanos prevê e garante, explicitamente, o direito “à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários”. Um dos indicadores de caracterização do desenvolvimento das sociedades é o seu sistema de saúde e a forma como cuida dos mais débeis.

O que está acontecer neste momento em Portugal com a greve dos enfermeiros é uma situação muito triste e certamente com implicações de vários níveis, sobre as quais não tenho competência para me pronunciar, contudo, parece-me muito estranho que se o que está em causa é uma questão de direitos, então porque é que não é tratada ao nível da justiça nos tribunais, e se colocam em causa os direitos básicos dos cidadãos.  

A minha experiência ao nível da administração de várias instituições mostra-me que algo que não se pode descurar são os direitos dos trabalhadores, mesmo quando estes entram em conflito e põe em risco a própria realidade que assegura o seu sustento, por isso, parece-me pouco razoável que o Estado enquanto pessoa de bem que tem o dever de zelar pelos direitos de todos possa pôr em causa os direitos de alguns. Se isso acontece não me parece que sejam as greves a solucionarem o diferendo, porque estas atingem os mais inocentes no processo e que são também os mais fragilizados pela sua situação de doença. Além do mais parece-me que as greves no imediato favorecem, sobretudo, os interesses de quem possui as unidades de medicina privada.

O homem é o corolário de toda a obra da criação divina e capaz de realizar os actos mais belos que nos permitem ver Deus a actuar no meio de nós, mas, também de uma forma impressionante se deixa enganar, e esquecendo-se do seu lugar de criatura, quer ser senhor e torna-se escravo dos ditames da sua vontade egoísta. Nesse momento perde a perspectiva da realidade e da sua condição e põe em causa a sua existência e a dos outros que o rodeiam.

Ao olharmos a origem de muitos dos conflitos do nosso viver em sociedade podemos reconhecer como é esta mentira que está presente como causa originante em muitos deles: o ser incapaz de ver para além da sua circunstância e dos seus desejos. Quando isso acontece ao nível daqueles que tem maior responsabilidade vemos como as consequências são sempre mais terríveis e nefastas afectando, sobretudo, os mais simples e frágeis.

A situação da Venezuela e outros países da América Latina e um pouco por todo o mundo, onde existem riquezas e recursos abundantes a vários níveis, torna-se alvo de uma cobiça por parte de alguns que põe em causa a existência de milhões. A cegueira pelo poder e o bem-estar fácil faz com que os outros apenas se tornem instrumentos dos caprichos selvagens de um ter que não olha a meios para ser alcançado. E isto não apenas de quem se encontra no poder, mas também de quem procura uma oportunidade para conseguir algum benefício particular. Quem acompanha as notícias destes conflitos graves e não se fia apenas do que é dito, fica com a impressão de que a verdade é maior do que aquela que nos é comunicada por quem controla os média e a opinião pública.  

O nosso modo de agir e a forma como nos relacionamos com os outros precisa de uma constante avaliação, realizada não pela justiça humana, porque essa é garantida por uma mulher vendada que segura na mão uma balança, mas sim pelo critério do amor que faz com que a maior riqueza esteja no bem que se faz e não no lucro que se recebe.

Pe. Ricardo Franco
Edição 1253 - 15 de Fevereiro de 2019