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O escândalo do mal!

A profissão de fé baptismal inicia-se com uma renúncia clara ao poder do mal: “Renuncias ao pecado, para viveres na liberdade dos filhos de Deus? Renuncias às seduções do mal, para que o pecado não te escravize? Renuncias a satanás, que é o autor do mal e pai da mentira?”. Afirma-se assim que para se poder realizar uma adesão pessoal total a Deus é imperativo uma renúncia clara ao que nos destrói e mata. Os cristãos são chamados a fazê-la anualmente na noite de Páscoa e sempre que alguém pede o baptismo para si ou para os seus. Não é possível ser de Deus e continuar escravo do Diabo.

Muitas vezes ouvi na minha formação em seminário que a cabeça do corpo é quem está mais sujeita às insídias do mal. É necessário estar vigilantes e numa atitude humilde de quem se sabe sujeito aos ataques constantes do senhor deste mundo e príncipe das trevas. O apóstolo Pedro exortava a todos os cristãos: “Sede sóbrios e vigiai, pois o vosso adversário, o diabo, como um leão a rugir, anda a rondar-vos, procurando a quem devorar.” (1Pe 5, 8)

Os abusos sexuais por parte de membros do clero é uma ferida aberta da Igreja. De uma forma terrível e escandalosa alguns sacerdotes e bispos cometeram verdadeiras atrocidades que desvirtuam tudo aquilo que é a santidade da sua vocação. O Papa Francisco, no final do encontro que promoveu em Roma com 230 representantes das Conferências Episcopais de todo o mundo, disse: “A desumanidade do fenómeno, a nível mundial, torna-se ainda mais grave e escandalosa na Igreja, porque está em contraste com a sua autoridade moral e a sua credibilidade ética. O consagrado, escolhido por Deus para guiar as almas à salvação, deixa-se subjugar pela sua fragilidade humana ou pela sua doença, tornando-se assim um instrumento de satanás. Nos abusos, vemos a mão do mal que não poupa sequer a inocência das crianças. Não há explicações suficientes para estes abusos contra as crianças. Com humildade e coragem, devemos reconhecer que estamos perante o mistério do mal, que se encarniça contra os mais frágeis, porque são imagem de Jesus.

A perversidade sexual do nosso tempo é um flagelo que ameaça de morte a nossa sociedade. Hoje são públicos imensos casos de abusos dentro das famílias e em todos os sectores da sociedade, mas a gravidade é maior quando são causados por quem ao longo dos séculos mais contribuiu para que a sociedade se tornasse mais humana e fundada em valores éticos fundamentais. As medidas aprovadas pelo Papa afirmam a necessidade de vivermos sempre na verdade e jamais perdermos a noção do bem sacrificando-o a interesses instalados e à defesa a todo o custo das instituições. 

É necessário uma purificação, é urgente que nos sintamos verdadeiramente responsáveis e empenhados neste combate, não é possível olhar para o lado diante da gravidade dos factos e assumirmos a atitude evangélica de condenação do mal como diz Jesus: “quem escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que atassem à roda do pescoço a mó que um asno faz girar e que o lançassem ao mar” (Mc 9, 42). É fundamental que construamos uma sociedade que não pactue com o mal e as injustiças, e olhe para estes casos gravíssimos como uma forma de entretenimento e de exploração mediática onde facilmente nos armamos em juízes que criticam e condenam os culpados.

O problema é grave demais para que não nos sintamos envolvidos. Não se trata apenas de saber o que o Papa e quem com ele governa a Igreja vão fazer, mas que todos nos sintamos responsabilizados por não contribuir para esta cultura que idolatra o sexo e tudo o que é promiscuidade do corpo e das pessoas. É preciso favorecer um ambiente em que todos saibamos ajudarmo-nos mutuamente a caminhar sem medo de ficarmos mal na fotografia pelos telhados de vidro que possamos ter sobre nós. É imperativo que aprendamos a contribuir generosamente para uma educação integral de todas as pessoas, particularmente as que têm maior responsabilidade. 

Jesus ensina-me: odeia o pecado e ama o pecador. Neste momento em que me sinto tão triste e também escandalizado, suplico-Lhe que me ajude a ser instrumento da sua luz no meio de trevas tão tenebrosas. Sempre soube que o Senhor me chamou a participar do seu sacerdócio, não para alimentar sentimentos religiosos vazios e estéreis, mas para ser “pescador de homens” que vivem envolvidos num mar de perigos e ilusões que condenam à morte. Anima-me a palavra de São Paulo: “Mas fiel é o Senhor que vos confirmará e vos protegerá do mal.” (2 Tes 3, 3)

Pe. Ricardo Franco
Edição 1254 - 1 de Março de 2019