Pesquisa   Facebook Jornal Alvorada
Login

Login na sua conta

Username *
Password *
Lembrar-me

Criar uma conta

Campos marcados com (*) são obrigatórios.
Nome *
Username *
Password *
Confirmar Password *
Email *
Confirmar email *
Captcha *
Reload Captcha

O escândalo do mal!

A profissão de fé baptismal inicia-se com uma renúncia clara ao poder do mal: “Renuncias ao pecado, para viveres na liberdade dos filhos de Deus? Renuncias às seduções do mal, para que o pecado não te escravize? Renuncias a satanás, que é o autor do mal e pai da mentira?”. Afirma-se assim que para se poder realizar uma adesão pessoal total a Deus é imperativo uma renúncia clara ao que nos destrói e mata. Os cristãos são chamados a fazê-la anualmente na noite de Páscoa e sempre que alguém pede o baptismo para si ou para os seus. Não é possível ser de Deus e continuar escravo do Diabo.

Muitas vezes ouvi na minha formação em seminário que a cabeça do corpo é quem está mais sujeita às insídias do mal. É necessário estar vigilantes e numa atitude humilde de quem se sabe sujeito aos ataques constantes do senhor deste mundo e príncipe das trevas. O apóstolo Pedro exortava a todos os cristãos: “Sede sóbrios e vigiai, pois o vosso adversário, o diabo, como um leão a rugir, anda a rondar-vos, procurando a quem devorar.” (1Pe 5, 8)

Os abusos sexuais por parte de membros do clero é uma ferida aberta da Igreja. De uma forma terrível e escandalosa alguns sacerdotes e bispos cometeram verdadeiras atrocidades que desvirtuam tudo aquilo que é a santidade da sua vocação. O Papa Francisco, no final do encontro que promoveu em Roma com 230 representantes das Conferências Episcopais de todo o mundo, disse: “A desumanidade do fenómeno, a nível mundial, torna-se ainda mais grave e escandalosa na Igreja, porque está em contraste com a sua autoridade moral e a sua credibilidade ética. O consagrado, escolhido por Deus para guiar as almas à salvação, deixa-se subjugar pela sua fragilidade humana ou pela sua doença, tornando-se assim um instrumento de satanás. Nos abusos, vemos a mão do mal que não poupa sequer a inocência das crianças. Não há explicações suficientes para estes abusos contra as crianças. Com humildade e coragem, devemos reconhecer que estamos perante o mistério do mal, que se encarniça contra os mais frágeis, porque são imagem de Jesus.

A perversidade sexual do nosso tempo é um flagelo que ameaça de morte a nossa sociedade. Hoje são públicos imensos casos de abusos dentro das famílias e em todos os sectores da sociedade, mas a gravidade é maior quando são causados por quem ao longo dos séculos mais contribuiu para que a sociedade se tornasse mais humana e fundada em valores éticos fundamentais. As medidas aprovadas pelo Papa afirmam a necessidade de vivermos sempre na verdade e jamais perdermos a noção do bem sacrificando-o a interesses instalados e à defesa a todo o custo das instituições. 

É necessário uma purificação, é urgente que nos sintamos verdadeiramente responsáveis e empenhados neste combate, não é possível olhar para o lado diante da gravidade dos factos e assumirmos a atitude evangélica de condenação do mal como diz Jesus: “quem escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que atassem à roda do pescoço a mó que um asno faz girar e que o lançassem ao mar” (Mc 9, 42). É fundamental que construamos uma sociedade que não pactue com o mal e as injustiças, e olhe para estes casos gravíssimos como uma forma de entretenimento e de exploração mediática onde facilmente nos armamos em juízes que criticam e condenam os culpados.

O problema é grave demais para que não nos sintamos envolvidos. Não se trata apenas de saber o que o Papa e quem com ele governa a Igreja vão fazer, mas que todos nos sintamos responsabilizados por não contribuir para esta cultura que idolatra o sexo e tudo o que é promiscuidade do corpo e das pessoas. É preciso favorecer um ambiente em que todos saibamos ajudarmo-nos mutuamente a caminhar sem medo de ficarmos mal na fotografia pelos telhados de vidro que possamos ter sobre nós. É imperativo que aprendamos a contribuir generosamente para uma educação integral de todas as pessoas, particularmente as que têm maior responsabilidade. 

Jesus ensina-me: odeia o pecado e ama o pecador. Neste momento em que me sinto tão triste e também escandalizado, suplico-Lhe que me ajude a ser instrumento da sua luz no meio de trevas tão tenebrosas. Sempre soube que o Senhor me chamou a participar do seu sacerdócio, não para alimentar sentimentos religiosos vazios e estéreis, mas para ser “pescador de homens” que vivem envolvidos num mar de perigos e ilusões que condenam à morte. Anima-me a palavra de São Paulo: “Mas fiel é o Senhor que vos confirmará e vos protegerá do mal.” (2 Tes 3, 3)

Pe. Ricardo Franco
Edição 1254 - 1 de Março de 2019



A justiça do: “Fazer por amor!”

Santa Teresa de Calcutá, um dia respondeu de forma magistral a quem a interrogava de como era capaz de cuidar assim dos doentes, sobretudo dos que mais repugnavam e cujo tratamento acarretava perigos para a sua própria saúde: “O senhor não daria banho a um leproso nem por um milhão de dólares? Eu também não. Só por amor se pode dar banho a um leproso.” Para muitos isto pode ser um devaneio de uma santa, algo que é impossível de fazer sempre, mas, eu acredito que é a verdade que dá sentido a toda a vida: “fazer por amor!”.  

A doença, enquanto dimensão de fragilidade inerente à nossa condição, é uma realidade comum a toda a humanidade, nesse sentido, a Declaração Universal dos Direitos Humanos prevê e garante, explicitamente, o direito “à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários”. Um dos indicadores de caracterização do desenvolvimento das sociedades é o seu sistema de saúde e a forma como cuida dos mais débeis.

O que está acontecer neste momento em Portugal com a greve dos enfermeiros é uma situação muito triste e certamente com implicações de vários níveis, sobre as quais não tenho competência para me pronunciar, contudo, parece-me muito estranho que se o que está em causa é uma questão de direitos, então porque é que não é tratada ao nível da justiça nos tribunais, e se colocam em causa os direitos básicos dos cidadãos.  

A minha experiência ao nível da administração de várias instituições mostra-me que algo que não se pode descurar são os direitos dos trabalhadores, mesmo quando estes entram em conflito e põe em risco a própria realidade que assegura o seu sustento, por isso, parece-me pouco razoável que o Estado enquanto pessoa de bem que tem o dever de zelar pelos direitos de todos possa pôr em causa os direitos de alguns. Se isso acontece não me parece que sejam as greves a solucionarem o diferendo, porque estas atingem os mais inocentes no processo e que são também os mais fragilizados pela sua situação de doença. Além do mais parece-me que as greves no imediato favorecem, sobretudo, os interesses de quem possui as unidades de medicina privada.

O homem é o corolário de toda a obra da criação divina e capaz de realizar os actos mais belos que nos permitem ver Deus a actuar no meio de nós, mas, também de uma forma impressionante se deixa enganar, e esquecendo-se do seu lugar de criatura, quer ser senhor e torna-se escravo dos ditames da sua vontade egoísta. Nesse momento perde a perspectiva da realidade e da sua condição e põe em causa a sua existência e a dos outros que o rodeiam.

Ao olharmos a origem de muitos dos conflitos do nosso viver em sociedade podemos reconhecer como é esta mentira que está presente como causa originante em muitos deles: o ser incapaz de ver para além da sua circunstância e dos seus desejos. Quando isso acontece ao nível daqueles que tem maior responsabilidade vemos como as consequências são sempre mais terríveis e nefastas afectando, sobretudo, os mais simples e frágeis.

A situação da Venezuela e outros países da América Latina e um pouco por todo o mundo, onde existem riquezas e recursos abundantes a vários níveis, torna-se alvo de uma cobiça por parte de alguns que põe em causa a existência de milhões. A cegueira pelo poder e o bem-estar fácil faz com que os outros apenas se tornem instrumentos dos caprichos selvagens de um ter que não olha a meios para ser alcançado. E isto não apenas de quem se encontra no poder, mas também de quem procura uma oportunidade para conseguir algum benefício particular. Quem acompanha as notícias destes conflitos graves e não se fia apenas do que é dito, fica com a impressão de que a verdade é maior do que aquela que nos é comunicada por quem controla os média e a opinião pública.  

O nosso modo de agir e a forma como nos relacionamos com os outros precisa de uma constante avaliação, realizada não pela justiça humana, porque essa é garantida por uma mulher vendada que segura na mão uma balança, mas sim pelo critério do amor que faz com que a maior riqueza esteja no bem que se faz e não no lucro que se recebe.

Pe. Ricardo Franco
Edição 1253 - 15 de Fevereiro de 2019



Os Jovens são o presente, o agora de Deus

As próximas Jornadas Mundiais da Juventude serão realizadas em Portugal.” Foi desta forma que o Cardeal Kevin Farrell, Prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, tornou pública a escolha do Papa Francisco de que seja a cidade de Lisboa a acolher a maior concentração de jovens a nível global, e que acontece todos os dois/três anos desde que S. João Paulo II teve a inspiração de as realizar aquando da visita a Portugal quando celebrava a Missa no Parque Eduardo VII.

Um sonho realizado”, é assim que muitos, sobretudo, os que como eu já participaram em várias, acolhem este anúncio, mas simultaneamente um desafio enorme a toda a Igreja de Lisboa e de Portugal. Pessoalmente, considero que o maior desafio, mais ainda que toda a complexa organização logística do evento, é como vamos fazer este caminho até ao Verão de 2022, como vamos aproveitar esta oportunidade para ajudar os jovens e toda a comunidade cristã a viverem de forma comprometida a sua fé em Cristo e a sua pertença à Igreja.

No Panamá, Francisco teve palavras fortíssimas que será bom que ecoem em todos nós: “Vós, queridos jovens, não sois o futuro. Gostamos de dizer-vos: «Sois o futuro….» Mas não é verdade! Vós sois o presente! Não sois o futuro de Deus; vós, jovens, sois o agora de Deus. Ele convoca-vos, chama-vos nas vossas comunidades, chama-vos nas vossas cidades, para irdes à procura dos avós, dos adultos; para vos erguerdes de pé e, juntamente com eles, tomar a palavra e realizar o sonho que o Senhor sonhou para vós.

Muitos experimentaram a força actuante e belíssima do Espírito como mostra a fotografia belíssima de um grupo de rapazes a levantarem ao alto uma cadeira de rodas para que um jovem incapacitado pudesse ver passar o Santo Padre. Ao ver força e a beleza daquele gesto recordei-me do episódio evangélico (Lc 5, 17-26) na sinagoga de Cafarnaum quando um grupo de jovens subiu ao telhado para fazer descer um paralítico à presença de Jesus. A fé faz brotar um amor que vence todas as barreiras, e na comunhão ser ocasião e graça para todos.

O mundo de hoje aprisiona os jovens em lógicas mesquinhas e alienantes, contudo, como lhes lembrava o Santo Padre é importante que eles queiram vencer os enganos do demónio e não tenham medo dos desafios constantes de quem se encontra com Jesus e aprender a ser seus influencers tal como Maria. “Olhai! Um amor que une é um amor que não se impõe nem esmaga, um amor que não marginaliza nem obriga a estar calado nem silencia, um amor que não humilha nem subjuga. É o amor do Senhor: amor diário, discreto e respeitador, amor feito de liberdade e para a liberdade, amor que cura e eleva. É o amor do Senhor, que se entende mais de levantamentos que de quedas, de reconciliação que de proibições, de dar nova oportunidade que de condenar, de futuro que de passado. É o amor silencioso da mão estendida no serviço e na doação; é o amor que não se vangloria nem se pavoneia, é o amor humilde que se dá aos outros sempre com a mão estendida. Tal é o amor que nos une hoje. Pergunto: acreditas tu neste amor? E faço outra pergunta: acreditas que este amor vale a pena? (…) Não tenhais medo de amar, não tenhais medo deste amor concreto, deste amor que tem ternura, deste amor que é serviço, deste amor que dá a vida. (…) Maria soube dizer «sim». Teve a coragem de dar vida ao sonho de Deus. E o mesmo nos é pedido a nós hoje: queres encarnar com as tuas mãos, os teus pés, o teu olhar, o teu coração o sonho de Deus? Queres que seja o amor do Pai a abrir-te novos horizontes e levar-te por sendas nunca imaginadas nem pensadas, sonhadas ou esperadas, que alegrem e façam cantar e dançar o coração?

As Jornadas são uma primavera do Espírito, são um dom imenso, um presente belíssimo, agora é importante que nos deixemos conduzir pelo Senhor e aproveitemos esta oportunidade para darmos a todos, não só aos jovens, a graça de encontrar a Fonte da Vida, onde tudo ganha sentido e onde a nossa existência é dimensionada pela eternidade do Amor de Deus.

Pe. Ricardo Franco
Edição 1252 - 1 de Fevereiro de 2019



Dia dos Fiéis Defuntos: a esperança que nos anima e conforta

Para mim escrever estas linhas é sempre um exercício difícil, mas que procuro fazer com seriedade, e com intenção de poder ajudar de alguma forma e ser útil a quem gasta tempo a ler. Quando pensava no tema para esta edição alguns me foram sugeridos:

- O Oitavário para a Oração pela Unidade dos Cristãos
No dizer do Papa Francisco uma missão de todos num compromisso sério por vivermos em fidelidade ao Evangelho, e na procura de apesar das diferenças caminhar na unidade. A fé nos diz que esta é possível pela oração, isto é, na abertura a acção do Espírito Santo que nos ensina a vencer todas as barreiras do nosso egoísmo e escolha erradas, e a seguir juntos por onde o Senhor nos chama, ainda que de formas diferentes, mas com a convicção profunda que o que importa verdadeiramente é encontrarmo-nos todos em Deus.

- A Jornada Mundial da Juventude no Panamá nos dias 22 a 27 de Janeiro

João Paulo II teve a intuição de fazer e concretizou esta iniciativa de se reunir periodicamente com os jovens cristãos de todo o mundo. Os outros Papas continuaram a fazê-lo e para Francisco esta é já a terceira vez: depois de Rio de Janeiro e Cracóvia agora é num pequeno país da América Central: o Panamá. Apesar de tantas solicitações aparentemente mais aliciantes que o mundo oferece, centenas de milhares, mesmo milhões, de jovens encontram-se para celebrar a sua fé e a pertença à Igreja Católica, acolherem uma Palavra de Deus na pessoa do Santo Padre, e para se renovarem interiormente na missão que o Senhor lhes confia de serem testemunhas do Evangelho e modelos de santidade.

- A crescente oferta de programas de televisão sobre as relações de compromisso entre duas pessoas das formas mais surreais

Apesar de não ter seguido pessoalmente estes formatos de televisão, escuto vários comentários e leio algumas notícias. Quando era criança surgiram na televisão as telenovelas brasileiras, idolatradas por uma grande maioria, revelando aquilo que hoje ainda se mantém em muitos casos: as pessoas precisam de fantasiar e encontrar escapatórias para as vidas que levam. A nossa sociedade vive um déficit assustador de capacidade de amar. Hoje parece que o que interessa é apenas o prazer egoísta e imediato. A doação simples, silenciosa e gratuita própria de quem ama, não está nos horizontes de vida de muitos, o que revela uma pobreza humana triste e preocupante. Só o Amor realiza a pessoa tudo o resto são caricaturas geradoras de vazio e angústia. Assistir a estes programas parece-me algo desaconselhável e inapropriado, sobretudo, para os mais novos. Trata-se de algo parecido com o ensinar as crianças a valorizarem a paz e depois oferecer-lhes armas, jogos de guerra e outras coisas do género para brincarem. Um mundo de faz de conta onde o que importa é o teu prazer!

- A reportagem sobre a vida das monjas do Carmelo de Coimbra: Clausura Feliz

Um exemplo de bom jornalismo sobre algo que edifica e importa para todos: a procura da felicidade. Aquelas mulheres dentro do Convento descobriram-na de uma forma interpelante e escandalosa para alguns, mas a verdade é que a sua alegria é autêntica e, por isso, contagiante. Quem dera que todos acreditássemos na força do Amor vivido em Deus e aceitássemos responder-lhe com generosidade, ainda que isso implique a renúncia e o deixar as débeis seguranças até aí aprendidas. A sabedoria da vida destas mulheres tem muito a ver com o que dizia outro grande Carmelita, São João da Cruz, sobre o modo de chegar ao tudo: “Para chegares ao que não sabes, hás-de ir por onde não sabes. / Para chegares ao que não gozas, hás-de ir por onde não gozas. / Para vires ao que não possuis, hás-de ir por onde não possuis. / Para vires a ser o que não és, hás-de ir por onde não és.

A nossa existência precisa de palavras que nos ajudem a encontrar sentido e sejam para nós uma interpelação a sermos mais no dom do Amor uns aos outros. Foi para isso que nascemos, se alguém nos disser o contrário está enganado. Se estas linhas ajudarem a encontrar alguma pista do caminho da verdade então já cumpriram a sua finalidade.

Pe. Ricardo Franco
Edição 1251 - 18 de Janeiro de 2019



Aprendendo com os Magos!

A festa da Epifania do Senhor que tradicionalmente se chama de Dia dos Reis é a celebração da manifestação de Jesus como Aquele que vem ao mundo para salvar a humanidade inteira. Os magos representam a todos aqueles que anseiam por mais na sua vida, e não se contentam com o pouco do agora que possuem, mas desejam alcançar a imensidade do céu que contemplam. A busca deste mais que preencha de sentido a existência é a característica de quem não se acomoda a uma sobrevivência sem horizonte.  

O Papa Bento XVI descreve esta procura de uma forma magistral: “Os homens que então partiram rumo ao desconhecido eram, em definitivo, pessoas de coração inquieto; homens inquietos movidos pela busca de Deus e da salvação do mundo; homens à espera, que não se contentavam com seus rendimentos assegurados e com uma posição social provavelmente considerável, mas andavam à procura da realidade maior. Talvez fossem homens eruditos, que tinham grande conhecimento dos astros e, provavelmente, dispunham também duma formação filosófica; mas não era apenas saber muitas coisas que queriam; queriam sobretudo saber o essencial, queriam saber como se consegue ser pessoa humana. E, por isso, queriam saber se Deus existe, onde está e como é; se Se preocupa connosco e como podemos encontrá-Lo. Queriam não apenas saber; queriam conhecer a verdade acerca de nós mesmos, de Deus e do mundo. A sua peregrinação exterior era expressão deste estar interiormente a caminho, da peregrinação interior do seu coração. Eram homens que buscavam a Deus e, em última instância, caminhavam para Ele; eram indagadores de Deus”.

 Os nomes dos magos não aparecem nas Sagradas Escrituras, mas a tradição deu-lhe nomes cujo significado realça a sua procura de encontrarem o tesouro das suas vidas. Melchior é caracterizado geralmente como um idoso branco com barba em representação da região europeia e oferece ao Menino o ouro pela realeza de Cristo. Gaspar representa a área asiática e leva o incenso pela divindade de Jesus. Enquanto Baltazar é negro proveniente de África e presenteia o Salvador com mirra, substância que se utilizava para embalsamar cadáveres e simboliza a humanidade do Senhor. Além disso, os três fazem referência às idades do ser humano: juventude (Gaspar), maturidade (Baltazar) e velhice (Melchior). Desta forma está representada a humanidade inteira, a universalidade da salvação, e como no coração de Deus no dom seu Filho todos temos lugar, e Ele não se esquece de ninguém. 

A estrela que guia aos Magos ao presépio, mais do que um fenómeno físico é um símbolo de quem olha para além da sua razão, está atento aos sinais, se deixa interpelar por eles e aceita pôr-se a caminho. A Sagrada Escritura confirma o sinal e dá uma Palavra de interpretação que permite acolher o mistério. Uma oração da Igreja protestante diz de uma forma muito bela: "Ó Deus, que pela Estrela manifestaste teu unigénito Filho a todos os povos da terra; guia-nos à tua presença, os que hoje te conhecemos pela fé; a fim de que desfrutemos de tua glória face a face; mediante Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém".

A palavra que marca a narração evangélica é verbo adorar que ouvimos na boca dos Magos: “Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”, e no que fazem quando chegam ao presépio “e entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no”. A verdade do Amor e da existência cumprida só se encontra em Deus e por isso só a Ele se adora! Os Magos desejaram encontrar o Senhor para poderem adorá-Lo, ou seja, procuraram sem desanimar e apesar das dificuldades o Único em cuja vida faz sentido e em quem sempre tudo se renova. Depois de adorarem “regressaram ao seu país por outro caminho” porque os seus olhos estavam iluminados, o seu coração convertido ao Amor, e os seus passos conduzidos pela Graça de Deus.

Agora é o tempo de fazermos nós a experiência: O Senhor vem para nós! Vamos também nós adorá-lo.

Pe. Ricardo Franco
Edição 1250 - 4 de Janeiro de 2019